Para Vera Morais.

Kalynka Cruz |
comentários(2) 18/02/2007 11:31
Fuga
Chove na cidade que não é minha nem tua
Os carros marcham descompassados
Uma louca ziguezagueia entre os motores
Cabelos molhados a chamar atenção
Avermelhados, a cor da estação.
Ninguém interrompe seu ato insano
Os carros seguem o processo desumano.
A chuva cai
A louca repousa
Não sonha mais...
Seus sonhos, lembranças e tudo enfim
Escorrem no asfalto na cor carmim...
Kelly Kalynka
18/02/2007 – 11h31 – São Paulo
Kalynka Cruz |
comentários(0) 17/02/2007 00:30
...
L'esperance
Voici quelques mots tristes
Sur un ami qui est bien loin d'ici...
Voici mon coeur glacé
Prêt à mourir et à s'effacer
Plein d'une substance
dont tout le monde pense
Qu'elle s'appelle vengeance
Mais pour moi c'est
Tout simplement l'esperance!
Kalynka – 00h30 – São Paulo
A menina sozinha no jardim
Kalynka Cruz |
comentários(0) 24/01/2007 13:04
...
AMO
Amo você e seus passos incertos
Amo teus defeitos e fraquezas
Amo quando me beijas
E quando me desejas
Deste teu jeito seguro.
Amo acordar ao teu lado
E desfrutar do teu olhar esverdeado
Envenenado,tarado, obcecado
A me descobrir desnuda
Ao alcance de tua mão.
Amo ser somente tua
Mesmo quando sei
Que não és apenas meu.
Amo tua existência conflitante
A me enlouquecer todo instante
Com dúvidas e inominável prazer.
Amo porque te amo
Não há engano nem erro
E por te amar sem desespero
Fico aqui a te esperar
Porque sei que em tua volta
Serás o mesmo homem
Que eu aprendi a amar.
Amo.
Kelly Kalynka
22h50 – São Paulo
Kalynka Cruz | comentários(0)
15/01/2007 13:20
...
Por suposto
E tu,
Que por suposto fostes meu
Te ausentas
Para desgosto d'uns olhos breus.
E a vida,
Que insistia em prevalecer
esvai-se,
Como a lua ao amanhecer.
E o sol,
Por mim chamado solidão
Ofusca
Qualquer brisa alegre deste coração.
Julinha da Adelaide
09 de janeiro de 2007 - 20h06
Kalynka Cruz | comentários(0)
09/01/2007 10:04
...
41 reinados
Poema depositado
Em oferenda ao encantado
Senhor dos sonhos meus...
Dos cabelos matizados
Do sorriso iluminado
E coração encarcerado.
Governante deste reinado
Que hora vejo deposto
Para tristeza e desgosto
De um coração plebeu.
Kelly Kalynka
São Paulo – 09/01/2007 - 10h04
Kalynka Cruz | comentários(3)
09/01/2007 09:59
Carnaval
Amor que é de sina
Menina deixe pra lá
Sufoca e já implora
Menina vem me abraçar!
Não, não leve para longe
Os beijos que são só meus...
Não roube dos meus olhos
O brilho dos olhos teus!
Respiro porque existes,
Mas morro a sufocar
Se tu me queres tão longe
Mais perto é o meu penar!
Kelly Kalynka
São Paulo – 09/01/2007 - 09h50
Kalynka Cruz | comentários(2)
21/12/2006 10:34
PRECE
p>
Esses teus olhos verdes de mar...
Me arrancaram do peito uma prece,
E eu que em nada mais jurei crer,
Vi minha alma (que julgava não ter)
Ajoelhada a pedir em oração,
Que este amor não finde.
E que como o mar seja feito de total imensidão.
E que como as ondas nunca pare
De arrebentar-se neste porto apaixonado,
vulgarmente de corpo chamado.
Porto, corpo, em ti somente,
A depositar-se absorto,
Pleno desta substância híbrida
Chamada por todos de amor...
Kelly Kalynka
Kalynka Cruz | comentários(3)
26/11/2006 14:42
...
MEU GIRASSOL
Minha mãe foi embora devagarzinho. Eu ainda era um menino. Ela assumiu os bichos dela, pensei. Assumir os bichos é tipo assim, aceitar que precisa fazer uma coisa e tocar a vida em frente independente do que os outros vão pensar ou do que possa acontecer.
Primeiro ela me falou que ia para outra cidade estudar. Depois que ia para outro país. Também estudar. O plano era morarmos junto noutra cidade, mas a vida estava tão difícil para ela que preferiu deixar-nos com meu pai na nossa vida confortável de classe média brasileira. Foi bom, é verdade, melhores escolas, viagens. Mas me faltava ela. Ela e seus abraços apertados. Seus cheiros no pescoço. Sua mania de escrever e recitar poesias para mim. Sua mania de beijar minha boca e mudar a voz perguntando quem era o neném dela. Era eu o neném dela!
Mas, mesmo com os planos de morarmos juntos esse dia nunca chegou. Primeiro ela foi fazer um Mestrado, depois um Doutorado, depois casou de novo. Eu ia visitá-la nas férias, sempre esperando o dia de morarmos juntos novamente. Ela também. Eu acho que ela acreditava nisso, que um dia íamos morar juntos novamente porque ela falava com uma convicção. Coitada, ela acreditava nisso. Eu sei porque eu olhava bem nos olhos dela e dizia: mãe fala a verdade! Aí ela abria aquele sorrisão dentuço dela e dizia que me amava e que ía morder minha barriga, eu saía correndo e ela vinha atrás, me abraçava e o mundo deixava de ter questionamentos quando ela me apertava em seus braços. Então eu acho que ela acreditava sem acreditar, porque quando chegava o dia de eu ir pra casa, os olhos dela iam ficando tristes. Ela ria, fazia palhaçada, mas os olhos negros de minha mãe iam entristecendo.
Um dia ela falou que meu pai ia ficar triste se ela me levasse embora. Falou que meus avós iam ficar tristes, que meus tios iam ficar tristes, muita gente ia ficar triste se ela me levasse e que ela não gostava de deixar as pessoas que ela amava tristes. Eu disse, mãe você também fica triste longe de mim, mas ela respondeu que ela era apenas uma pessoa triste e os outros eram muitos. Minha mãe era assim, estranha. Ela amava gente que não a amava e sempre tinha medo de machucar as pessoas, até mesmo aquelas que a machucavam muito, como o meu pai. Mas voltando, ela foi embora devagarzinho. Às vezes ela ligava chorando, eu sabia que ela tava chorando porque ela fazia uma voz estranha de “oi meu filho eu estou ótima”, mas a voz tava embargada. Nessas horas era batata, ela sempre dizia, olha não esquece que eu te amo muito meu neném, independente do que possa acontecer eu te amo muito.
Estava me lembrando de uma conversa que tivemos logo que ela foi embora. Eu tinha ido visitá-la e perguntei mãe, com que idade as pessoas morrem? Ela respondeu que não tinha idade, às vezes elas vivem mais do que o normal, outras morrem cedo demais. Ai eu falei para ela, mãe se você morrer eu morro junto e vou ser enterrado junto com você assim, barriga com barriga e deitei no colo dela mostrando. Ela riu de mim e prometeu que se eu morresse ela levantava do caixão e me dava uma surra! Tínhamos estas conversas surreais. Uma vez ela me disse que tinha esperado muito o dia do meu nascimento, porque ela sabia que tínhamos sido predestinados. Ela disse que já sabia que eu ia nascer. Eu acredito, porque não consigo imaginar ter outra mãe que não ela. Mesmo com a distancia ela era a mãe que eu sempre quis, nunca quis outra. No dia do meu casamento ela chorou. Mas abraçou a minha mulher tão forte, com tanto amor, que minha mulher se apaixonou por ela. Então minha mãe ganhou mais uma filha. Por isso hoje minha mulher levantou da cama mesmo com tanta dor de cabeça e se arrumou muito bem para ir comigo encontrar minha mãe.
Eu aprendi uma coisa com a minha mãe. Aprendi que amar não tem regras. Amar ultrapassa fronteiras, distâncias. Ela odiava clichês, mas é isso, o amor ultrapassa a materialidade porque mesmo tão distante eu sempre me senti amado, como me sinto hoje, amado.
As pessoas diziam que minha mãe era impressionantemente forte. Ela odiava isso. Ela não se achava forte. É que as pessoas confundem coragem com fortaleza. Porque isso ela era, corajosa. Enfrentava a vida de frente. Sempre foi verdadeira. Sua única mentira foi dita sem ela saber que mentia. Sua única mentira foi dita a ela mesma.
Eu não tenho mágoa porque o amor dela sempre foi tão intenso que sufocava qualquer outro sentimento ruim que pudéssemos pensar em nutrir por ela.
As flores preferidas de minha mãe sempre foram os girassóis. Ela se encantava com os girassóis, porque os girassóis eram atraídos pelo brilho do sol. Pela luz. Como ela, eu acho. Quando eu tinha cinco anos ela plantou um girassol no vaso. Mas a vida dele não foi muito longa e no dia que o girassol murchou de vez, morreu, minha mãe chorou. Então eu acho normal as pessoas falarem com as plantas porque minha mãe até chorava por causa delas! Por isso hoje eu pensei em levar girassóis, mas eles são muito grandes, por isso vou levar margaridas, que ela dizia serem girassóis em miniatura. É que elas, as margaridas, podem perfeitamente ser arrumadas ao seu lado. Mas é isso, estou atrasado, preciso beijar minha mãe, que foi embora devagarzinho e hoje, como o girassol da minha infância, nos deixou de vez.
Kelly Kalynka - São Paulo - 26/11/2006 - 14h50
Kalynka Cruz | comentários(7)
14/11/2006 20:13
...
BORGES
Entrei,
Esperavas-me da cama ao lado
Cabisbaixo e enciumado
De um outro que apareceu
Arrumado ao lado teu.
Tirei a roupa
Escovei os cabelos
Vesti a camisola
Deitei-me na cama
E me joguei em teus braços
Como uma mulher que ama.
Sorristes e passastes a me contar
Das tuas longas viagens
Dos amores que não vivi
Dos lugares que não sei
E que decerto nunca verei.
Adormeci.
Cansada sonhei contigo.
Que és meu único amigo
E embora sejas um livro
És minha melhor companhia
Nessa cidade triste e fria.
Kalynka -20h06 – São Paulo,14 de Novembro de 2006
Kalynka Cruz | comentários(2)
14/11/2006 20:01
...
Todo poeta é triste
Traz sempre uma dor guardada
Para expor na hora inesperada
Em que se tem tudo
E noutro segundo mais nada.
Todo poeta é mentiroso
Sorri na rua em demasia
Apenas para esconder
As tristes vidas vazias
Que o fazem companhia.
Todo poeta é simplesmente
Um enfermo a suspirar
Pela eutanásia premente
Que ele chama de amar!
Kalynka – Sampa, 14.11.2006 - 19h59
Kalynka Cruz | comentários(2)
13/11/2006 12:37
...
Conto inspirado na música Love in the afternoon (Renato Russo - Legião Urbana)
A morte de Dora
Sentada no sofá, ao lado a xícara de café gelado. Nem uma lágrima. Não desta vez.
Pensava num diálogo imaginário, enquanto lembravada música de Renato Russo, love in the afternoon:
-Eu me apaixono todo dia, é sempre a pessoa errada.
-Gosto de você também - Respondeu melancólico.
-Eu me lembro de você dias assim, dias de chuva, dias de sol – falou piscando como se quisesse fazer parecer uma brincadeira o fato de pensar nele todos os dias.
-O que sinto eu não sei dizer - Foi o que ele conseguiu responder.
- Eu aprendi a ter tudo que eu sempre quis, só não aprendi a perder, mas, vai em paz – respondeu sabendo que aquela decisão não era dela. Se ele tinha que partir, que a deixasse.
- Até a próxima vez – despediu-se o rapaz, sem olhar para trás.
Dora que andava brincando há tempos com os próprios sentimentos, que tinha se colocado num patamar inalcansável, agora se desesperava. Gostaria de ter amado a qualquer um, menos aquele homem tão distante. Aquele homem impossível. Ela, Dora, tão segura. A Dora das paixões inventadas apenas para ter inspiração, a Dora das paixões controladas apenas para se mostrar melhor. A Dora que saia e entrava nas relações como se por elas nunca tivesse passado, havia sido atingida. Era amor. Daqueles que ferem, matam, enlouquecem. Como o amor das suas três heroínas preferidas. Piaf. Heloíse e Camille Claudel. Coincidentemente francesas, como o homem que amava.
Lembrava do dia que o conhecera. Estava distraída conversando com um tedioso senhor após um evento, e para seu alívio o tal senhor, por estar sendo solicitado para outra conversa apresentou-a a um rapaz. Que estranho. Que agradável sensação encontrar um homem que lhe olhava nos olhos. Não pensou em conquista, nem em sexo, nem em amizade. Apenas sentia-se tão bem, tão eufórica a olhar naqueles olhos brilhantes e verdes que iniciou uma conversa animada. Sentia-se segura. Mas a hora de partir havia chegado e ela despediu-se. Notou o interesse do homem, que a questionou sobre sua partida. Pensou, “não custa nada tentar” e falou: me dê seu e-mail para trocarmos umas idéias.
O que ocorrera naquela noite de mais estranho é que seu alarme não havia sido ligado na presença do tal homem de rosto marcante, olhos verdes e postura dominadora. Geralmente quando se interessava um alarme interno se ligava com toda força avisando, perigo. O que fazia Dora precaver-se e iniciar o relacionamento com planos arquitetados para não se machucar e extrair o que fosse de melhor da relação. Pior ainda, era Dora quem determinava se iria se apaixonar ou não. Um auto-controle que nenhum de seus amigos e amigas suspeitavam ter. Dora sabia, suas melhores produções literárias e profissionais eram resultado dessas paixões inventadas. Apenas uma vez, há mais de dez anos ela havia sido pega de surpresa. Como agora.
Alguns dias depois, por estímulo das amigas, resolver ligar para o homem e deixar recado. Ele não respondeu. Um sinal, pensou. Tento outra vez? Questionou-se. Sim, sim. Mais uma vez as amigas pareciam mais estimuladas e lhe deram força. Tudo bem, pensou. Deve render uma boa amizade. Dessa vez o homem retornou a ligação. Marcaram um jantar numa sexta-feira. Um dia primeiro de uma primavera que não veio. Fazia frio. Arrumou-se. Desceu para esperá-lo. Assustou-se ao vê-lo. Tão belo, ele trazia um sorriso insuportavelmente irresistível. E aquela seria a maior arma daquele homem diante de Dora, seu sorriso lindo iluminado pelo brilho dos olhos verdes mais belos que Dora já havia visto. Ferrou-se, pensou Dora. Entrou no carro dele. Achou engraçado o jeito como ele a olhava. Invadindo. Um olhar vivaz a examinar-lhe o rosto. Jantaram num pequeno restaurante. Carne. Ela detestava carne. Nunca contou isso a ele. Foi a primeira exceção que abriu. Abria para as amigas. Comia e não reclamava. Poderia fazer essa concessão a ele também. Na verdade, seria uma deliciosa exceção. Riu-se dele, de suas brincadeiras e ficou paralisada ao vê-lo cantar, sem saber, sua música preferida. Eles eram parecidos. Mal sinal, pensou. Alguém parecido comigo não deve ser uma pessoa normal. Ambos imperativos, arrogantes (embora ele a suplantasse nisso, pois conseguia ser mil vezes mais arrogante que ela), seguros e viscerais.
O sexo deve ser ruim pensou Dora. Há algo de errado nesse homem, ele não pode ser tão encantador, tão belo. É isso, o sexo deve ser ruim. Para desespero de Dora, não foi. Foi perfeito. O melhor de tempos. Mesmo feito na sala, mesmo feito no chão. Foi perfeito. Voltou para casa intrigada. Deve ser burro. Não era. Os outros encontros mostraram que ele era inteligente e culto. Medo. A falta de defeitos importantes no homem a apavorou. Teve encontros românticos, encontros engraçados, situações agradáveis. Esse homem tem que ter algum defeito. Dora se agarrava nessa esperança, quem sabe assim não se apaixonaria. Não tardou a aparecer a primeira sombra. Uma ex-namorada. Mas ele a acalmou dizendo que o relacionamento havia acabado, por decisão dele e que nada havia de importante entre eles. Dora apaixonou-se. Desta vez sem invenção. Era uma paixão natural e incontrolável. Indescritível também. Dormir nos braços daquele homem proporcionava à rebelde Dora horas de uma tranqüilidade que ela sempre sonhara. Adorava o jeito que ele lhe agarrava na hora de dormir sem deixar que se mexesse. O ar lhe faltava, de verdade. Sem invenções, ela tinha falta de ar ao acordar do lado dele. Seu coração palpitava quando estava nos braços daquele homem. Tinha vontade de chorar tão bom era o que sentia ao seu lado. Sua insônia voltou. Era uma insônia boa. Ele sonhava e falava seu nome. Dora achava lindo ser chamada em meio aos sonhos de seu querido. Além disso, quando ele dormia e ela estava acordada podia roubar-lhe a beleza e guardar na sua memória seu rosto tranqüilo, seus cabelos levemente ondulados, seu nariz pedante, sua boca séria, seus braços bem torneados, seu tórax forte. Às vezes ria-se sozinha, de madrugada, lembrando as brincadeiras que faziam durante o dia. E foi numa destas madrugadas que Dora percebeu. No dia de seu aniversário, mais precisamente, acordara as cinco da manhã, um pouco tonta por causada bebida. Ficou imóvel na cama saboreando aquela descoberta. Era, definitivamente, amor. Não o amor vulgar, era mais que isso, era um amor real, daqueles capazes de suportar as piores feridas. Não posso amar esse homem pensou. É que nessa ocasião Dora já sabia pelo próprio, que eles não poderiam ficar juntos pois ele planejava ir embora em breve. Preciso pensar sobre isso. Quando ele acordou, tomaram café juntos. Ele brincou dizendo até nunca mais e ela sentiu medo mesmo sabendo que se tratava de uma brincadeira. Havia um tom premonitório em seu coração. Despediu-se do rapaz que ia viajar. Era outro dia primeiro aquele dia. Que engraçado, pensara. Um dia primeiro para ser encantada, um outro dia primeiro para descobrir que iria sofrer e muito, num futuro distante.
Resolveu escrever sobre o que sentia. Na sua concepção o mais belo texto que já escrevera:
Meu querido Paul;
A paixão é o encantamento e o encantamento é a primeiridade. A convivência cotidiana e suas descobertas são a secundidade. O amor é a terceiridade, nasce da semiose (mediação) do encantamento e do cotidiano e suas descobertas. O amor é o signo genuíno, a propria causação final. Ele (o amor) só existe porque é subseqüente às primeira e segunda categorias e a partir delas se renova sempre com novos encantamentos e novas descobertas cotidianas. A interrupção da semiose é o fim do amor.
E por isso, posso dizer-te, enfim, que o amo. É minha maior descoberta. Até então, dos muitos com quem me envolvi e dos tantos com que cheguei a me deitar, vivi a semiose degenerada. Passei pela primeiridade até chegar na terceiridade estática, sem avanço, sem renovação da semiose. Não amei. Mas com você, este amor é o signo genuíno, é a causação final. Não pelos signos que tu imaginas. Não me encantou nem me trouxe boas sensações o fato de seres estrangeiro, ao contrário, isto sempre me incomodou, e muito, por não me ser agradável a idéia de me relacionar com alguém que não dividia as minhas convicções. Também pouco me afeta, ou me importa, a tua situação financeira, pois como tu foram iguais muitos dos que te antecederam.
Meu encantamento deu-se no primeiro momento à surpresa estética. É verdade, tomastes minha atenção por seres demasiadamente belo. Ofuscastes meus olhos como a luz do sol refletida na vitrine. E eu por nada mais enxergar que tua luz, me vi retida diante de ti. Depois vieram, na secundidade, as surpresas e certezas cotidianas. Um jeito doce e forte de me abraçar de madrugada, uma certa maneira de sorrir que ilumina teu rosto, a maneira de fazer piadas e brincadeiras, a genialidade na arte de se contrapor nas idéias , um jeito de se mover, de segurar o livro, a maneira de piscar os olhos, a capacidade de ser bruto e doce na mesma fração de segundos. Uma certa ternura ao me olhar, uma declarada posse ao me buscar na cama. Uma infinidade de detalhes presentes no cotidiano que sustentaram e me trouxeram á terceiridade, ao signo genuíno, que nada mais é do que este amor, que descoberto está a se renovar cotidianamente.
Eu te amo.
Tua Dora.
A carta foi escrita em poucos minutos, como se Dora já soubesse há muito o que sentia e aquilo tudo só tivesse de certa forma se organizado na sua cabeça. Passou a carta a limpo num lindo papel reciclado. Escondeu-a na bolsa. Decidiu que a entregaria no dia da chegada de seu amado. Mas a chegada conturbada do rapaz, cheio de compromissos fez com que ela adiasse a entrega. Pensou em entregar durante o café da manhã da segunda-feira.
Acordaram juntos, ela desceu. Estava feliz. Fosse por acordar nos braços de seu amor, fosse porque sentia-se estranhamente tranqüila. Desceu para preparar o café. Água no fogo, foi esperar a fervura encostada na janela, ao lado do computador. Uma máquina digital chamou sua atenção. “Hummm, fotos da família”, sorriu e resolveu olhar os arquivos na máquina. Mas deparou-se com ela, a ex-namorada ao lado de seu amor, ambos sorriam, genuinamente felizes naquela fotografia. Uma felicidade que a cegou. Dor. Preciso ir. Não posso. Preciso. Não consigo. Não posso, não posso, não posso. Quedou-se no sofá. Ele desceu. Você tem sono? Perguntou vendo-a sentada e cabeça baixa. Não. Respondeu. Você está bem? Sim. Vamos tomar café. Vamos. O líquido nunca lhe parecera tão amargo. Quatro colheres de açúcar tinham sido insuficientes. Levantou-se, despejou o líquido na pia. Ficou tonta, coração descompassado, pressão baixa, uma mistura de tristeza e dor. Vou embora. Ele percebeu sua confusão. Questionou-a. Ela não explicou. Precisava de ar. Já vou. O que eu fiz ou não fiz? Nada, você não fez nada, não é o que você fez, é o que eu vi. Preciso ir e beijou-lhe a boca cerrada. Tudo bem. Tchau. Voltou, mais um beijo, doloroso. Foi-se.
Na rua decidiu que nunca mais voltaria ali. Sua despedida seria aquela conversa imaginária, inspirada na música do Renato Russo, Love in the afternoon.
Não tinha mais 23 anos. Mas poderia ter dado a ele tudo o que ele sonhara, um filho, tranquilidade e o mais importante, o maior e mais devotado amor do mundo.
Mas a vida é assim. Na maioria das vezes não somos dignos de viver aquilo que sonhamos. O amor é para poucos. É para os ricos de sorte e de grandiosidade e Dora descobrira naquela manhã, não ser nada daquilo. Elanão era nada. Mas só então pôde enxergar isto,através de uns olhos verdes que a feriram mortalmente.
A carta? Ah, a carta...gostaria de tê-la rasgado.
------
Prólogo:
Rosto inchado, maquiagem borrada, gosto de cadáver na boca. Dora acorda, arrependida por ter chorado na madrugada, arrependida por ter fumado um maço de cigarros. Pega o telefone e liga para ele. Não, não é ele, o francês. É para Ele, o seu primeiro e sempre devotado amor.
-Alou. Bom dia, te acordei?
-Acordou. Fala Dora, o que foi agora, quer me torturar?
-Você ainda quer casar comigo?
-O quê?
-Casar, você ainda quer casar comigo?
-Claro, sua doida, sempre. Você é a minha primeira opção, sempre.
-Então tá. Eu aceito.
-Como assim? Aceita, de verdade, não vai mudar de idéia como sempre...eu falo sério.
-Eu também.
-Eu te amo.
-A gente resolve isso.
Era Dora. Na ativa, outra vez.
13 de Novembro de 2006 – São Paulo – 012h30
Kalynka Cruz | comentários(6)
13/11/2006 08:09
...
É a verdade o que assombra, o descaso o que condena, a estupidez o que destrói. (Metal contra as nuvens - Renato Russo)
A EVOLUÇÃO DA LAGARTA OU A DESCOBERTA DO AMADURECIMENTO
Gosto de pensar que as coisas se resolvem naturalmente. Uma ferida que sara. Uma amiga que perdoa. Um mal entendido que se desfaz. Alguém que não te ama que te dá motivo para partir. É a melhor maneira das coisas acontecerem. Não há acaso nisso. Nada é por acaso. É a lei das coisas. A realidade prevalece. Sempre. Houve uma causa inicial que levou aquele resultado, natural. É o caminho da vida que se dá na evolução da lagarta ou na decepção de um ser. Não é por acaso que sua amiga lhe perdoa, antes, muito antes, você fez coisas que a levaram a somar e perdoar. Não é por acaso que um mal entendido se resolve, houve um comentário escondido que emergiu. Não é por acaso que a decepção acontece, aquela fotografia, tão linda do seu amor ao lado de outra não foi feita por acaso, foi feita por amor e também não foi por acaso que você olhou o conteúdo da máquina, foi porque lá dentro você sabia, por alguma causa que talvez nem saiba qual, que ali estava a resposta pras suas perguntas. É isso, não há vítima, pode até parecer injusto, mas não é.
Gosto de ter certeza de que, como a lagarta que evoluiu, trocou de pele, toda dor se desfaz e se transforma em algo novo. Não necessariamente algo bom, mas novo. Dor que vira saudade, saudade que vira tristeza, tristeza que vira melancolia, melancolia que vira solidão.
Todo esse processo de evolução da lagarta, ou da dor, pode ser chamado de amadurecimento. E o que é amadurecer? É ter a sabedoria de aceitar que há coisas que não são reservadas para você. Pode parecer cruel, mas é novamente a realidade que prevalece. Como no caso da origem das pessoas, quando é o início de tudo que determina o fim. Sempre.
Renato Russo foi divino ao escrever que é a verdade o que assombra. É verdade, Não é a mentira que te traz as trevas e sim a verdade quando prevalece, porque as mentiras são sempre pinturas renascentistas a lhe cegar a razão, mas a verdade, a verdade é um quadro do Munch pendurado a um metro de você, como uma faca no seu coração te mostrando a dor. Sim esses são dias desleais. Os dias do prevalecimento da verdade, dias em que a dor é tão assombrosamente grande que parar de respirar seria um alívio.
Kelly Kalynka
13 de Novembro de 2006 – São Paulo – 07h57
Kalynka Cruz | comentários(0)
04/11/2006 00:44
...
A CONTADORA DE SINAIS
O homem tinha 2853 sinais, isto os maiores, porque os pequenos (que pareciam sardas) eram em milhões. E eu, do alto de minha ingenuidade quase adolescente –tinha 22 anos – resolvi contá-los, um a um.
A cada dia um sinal novo me aparecia e eu decorava o labirinto humano perdida naqueles sinais. Um dia os novos sinais acabaram (para mim cada sinal a ser contado era novo) e eu já não tinha o que fazer naquele corpo, naqueles braços.
Não havia mais sinais a serem contados e eu não poderia me debruçar sobre o seu rosto namorando seus olhos (e contando os sinais) ou sobre sua costa sentindo o seu cheiro (e lhe contando os sinais). Então o homem, pragmático, falou:
-Já sei quantos sinais eu tenho! – E dito isto, foi embora.
Não tive sequer forças para detê-lo, foi ele quem quis assim.
Eu cá com meus botões, pensei: “se ele voltasse eu contaria os sinais de novo”.
Mas ele não voltou.
Soube depois, por intermédio de uma contadora de cabelos, que um novo homem, cheio de novos sinais, buscava por mim. Fechei a casa, apaguei as luzes, coloquei o meu vinil na vitrola e me escondi para sempre.
Kelly Kalynka
Kalynka Cruz | comentários(4)
02/11/2006 22:28
...
"Fille contre l'amour"
Fotografia intantânea da minha alma neste belo novembro.
GEME
(Pi>
Tenho tanto desejo, que tremo!
Temo ser este desejo, algo maior e supremo:
Amor que geme. J’aime?
Que seria tal sentimento
Com tanto desejo carnal?
Desejo tanto teus beijos poucos
Amo em demasia tua carne quente
Ouso roubar-te o sono, impunemente.
Desafiar tuas horas, suplantar tuas genéticas memórias.
Ser mais do que sou, ao ser desafiada
Pela supremacia anunciada
Nas horas em que por distração
É teu por completude meu coração.
Sou poeta de nascimento
Sempre inspirada em vis tormentos.
Mas tu chegastes tão intenso
Que hoje me vejo a escrever
Sobre tudo que é de teu viver.
Tua beleza rara, a desafiar-me a escrita
Que nunca é o bastante para descrever o tal instante
Em que te deitas ao meu lado:
É um ar que me falta
Uma insônia que me toma
Um não conter-se de risonha!
Eu amo. Amo. Amo?
Temo. Tremo. J’aime?
Não serei impune, eu sei.
Amar um sonho impossível
Traz sempre as penas da Lei!
Kelly Kalynka – São Paulo, 02 de Novembro de 2006 – 22h15
Kalynka Cruz | comentários(2)
02/11/2006 19:44
...
O ESTRANGEIRO
Não sei com certeza se é amor
Mas por sê-lo, sem sabê-lo,
Eis-me:
Caudalosa e fria
Como um rio condenado.
Nunca sei o que se passa
Nessa densa névoa fria
Onde já morreram outros
Por descaso em demasia.
Mas és assim tão brilhante
Estrangeiro encantado
Que uma premonição me toma:
Muito hás de sentir a meu lado!
Mesmo que a sentença seja
A de naufragarmos juntos
Nada há que não preveja
Que os prazeres serão muitos.
Importa-me pouco o passado
Muito me interessa o futuro
Mesmo distante e obscuro
Mais me vale uma vida vivida
Que a eternidade no muro!
Kelly Kalynka – São Paulo, 02 de Novembro de 2006- 20h38
Kalynka Cruz |
comentários(0) 13/10/2006 01:51
Palavras
As palavras, as palavras,
A escorrer pelas mãos
A descongelar os dedos
E espalhar meus segredos...
Quero guardá-las, as palavras,
Mas não me deixam sossegar
Sempre sussurrando
Inventando,
Uma forma de se soltar.
Eu já lhes disse,
Com toda convicção
Não merecem
Aquelas víboras
O esforço de minhas mãos!!!
Mas não adianta
Explicar-lhes assim
Palavras são como crianças
Prontas a se soltar
Fazer estripulias
Zombar de mim...
Então vão, palavras loucas,
Deixem ao menos suspirar
O xiste de minha boca:
“É raiva que sinto sim!
Queria matar,
Arrancar os olhos,
Torturar até o fim,
Aquelas loucas
Que zombaram de mim...”
Pronto, palavras, as avisei,
Agem até contra a Lei
A expor coisas que
nem mesma eu sei
se farei...
“Ah, mas é verdade...vós desejeis!”
Palavras!!!
Julinha da Adelaide
Sampa- 11 de Outubro de 2006 - 21h53
Kalynka Cruz |
comentários(0) 28/09/2006 01:08
Abstrato
A J.L.Borges
A vencer sua insônia
Nos braços de Borges
Empolga e esquece
Seu doce sonhar.
Que dia mais lento
Que infelicidade
Se entre os braços
De Borges não está.
Anda a estar aflita
Corre do trabalho
Por um novo encontro
Sempre a esperar.
Não há festa boa
Chuva ou garoa
Que de seu amado
A possa afastar.
E ele tão velho
Decrépito enfim
Cultiva da moça
Carinhos sem fim!
Kelly Kalynka- São Paulo, 01h03Kalynka Cruz |
comentários(3) 27/09/2006 11:01
FOME
Tenho fome do teu tormento
Dos teus olhos tão gris
De tuas mãos febris
A me apertar os quadris
Em frêmitos e ardis.
Tenho fome de tua boca
Tenho fome de tua pessoa
Devorar-te-ia inteiramente
Sorver coxas, peito, nutrientes!
Tenho fome de tua alegria
De tua sedução desenfreada
De tua galhardia desaforada
De tua doçura disfarçada.
E já não há o que me sustente,
Desejo bebê-lo sucessivamente
De tal maneira indecente,
Com tal desejo e fome
Que nunca, olvides jamais
Este olhar que te come!
Kelly Kalynka
São Paulo, 26/09/2006 – 17hKalynka Cruz |
comentários(3) 22/09/2006 11:05
Em teus braços
Respiro
O ar que tu me roubas
Num laço
Envolta em teu abraço
Acordo
A poesia guardada
Recordo!
Kelly Kalynka
São Paulo, 18/09/2006 - 6h45Kalynka Cruz |
comentários(0) 21/09/2006 18:27
Júlia sonha
Amanhece.
Ardendo em carne, demente,
Deitada em leito inocente
De forma e tal jeito indolente
A jamais parecer indecente.
De vez está enlouquecida
As auriculares fibras amortecidas
Marcadas em lâminas precisas
Provam, Júlia respira, mas não está viva.
Em éter e álcool mergulhada
Em paranóia desenfreada
Sonha [de amores] estar realizada
Mas Júlia, nunca terás nada!
Aquiescida da desilusão
De dentro de si uma razão
Ouve dizer-lhe então:
Júlia, Júlia, porque resistir?
Teu destino é cedo partir
Teu amante, nunca irá vir
Teu futuro, é nunca sorrir.
Vai Júlia, nunca terás nada!
Sorrindo, mas em desânimo
Repele o destino medonho
Justifica seu tolo sonho:
Não pode deixar de buscar
De sentir, de arder, de sonhar.
Kelly Kalynka – São Paulo, 21 de Setembro de 2006 – 18h23
Kalynka Cruz |
comentários(0) 17/09/2006 17:50
DOMINGO
Em concreto
Me mostras tuas curvas, retas, linhas
Côncavas e convexas.
Tua garoa,
Teu silêncio domingueiro
De formigueiro fervilhante.
Pipoca na cozinha.
Música no PC
Drummond que sai da estante e
Borges a me espreitar a todo instante!
Na terra que tudo é
Jamais serei como antes.
Aqui não há mãos dadas
Nem beijo na porta de madrugada.
Olha o ladrão. O PCC!
Amor, cadê você?
Aqui não tem beira rio
Abro a janela
Me açoita o frio!
Mas que loucura
Que insanidade
Mesmo com tanta calamidade
Vejo beleza nessa cidade!
Kelly Kalynka
São Paulo, 17 de Setembro de 2006 - 16h30Kalynka Cruz |
comentários(0) 17/09/2006 17:15
...
Achei alguns poemas antigos nas minhas pastas, vou publicando aqui. Este é de 2001:
Aguenta
Eu tenho em mim a solidão de todos os dias.
Arroz,
tomate,
café,
marido desempregado e
feijão.
Eu tenho em mim a solidão de todos os dias.
Pega ônibus,
ama os filhos
deixa os filhos
marido desempregado,
não tem dinheiro pro pão.
Eu tenho em mim a solidão de todos os dias.
Força,
resistência,
desmotivação,
Marido desempregado e
inflação.
Eu tenho em mim a solidão de todos os dias.
Sorriso amarelado,
trabalha o dia inteiro,
chega em casa,
lava o chão, limpa o banheiro
marido desempregado e
preocupação.
Eu tenho em mim a solidão de todos os dias.
toma banho de água fria
esquece que aniversaria,
rasga roupa e a agredia
marido desempregado e
desilusão.
Ai, como eu queria uma paixão!
Kelly Kalynka -
Belém, 16/08/2001 - 1h06
______________
Este outro é de 1994:
ONDE
Onde estão nossos meninos?.
Nas sargetas.
Nas calçadas.
Onde estarão nossas meninas?.
Indefesas e sozinhas.
Nuas pelas esquinas...
Filhos e filhas da noite.
Recebedoras deste açoite..
Vivas em nossos sinais.
Mortas em nossas candelárias.
Vítimas das matanças,.
Onde estão, onde estarão nossas crianças?.
Congeladas nos invernos.
Desidratadas nos verões....
Onde estão, onde estarão seus corações?.
Quem neles plantará emoções?.
As fúteis e inúteis damas.
Ou os corruptos e desonrados cavalheiros?.
Onde estão, onde estarão nossas crianças....
E nossa consciência onde estará?.
Kelly Kalynka
Belém, Outubro de 1994
______________________
Hehehehe...esse é bem fraquinho, também de 1994...
BEIJO
Uma gota salgada
C
A
I
U
de teus olhos
e alojou-se
em teus lábios.
Sorvi-a.
Kelly Kalynka - 1994
Kalynka Cruz |
comentários(0) 16/09/2006 14:14
...Lumini
"Lumini". Criação visual para a citação de Charles Sanders Peirce:
O universo está em expansão. Onde mais poderia ele crescer senão na cabeça dos homens?" (C. S. Peirce)
Kalynka Cruz |
comentários(0) 14/09/2006 18:11
Insepultos
Todos as quintas-feiras ela se arrumava. Lavava os cabelos, secava-os com uma toalha felpuda, aromatizada com alfazema. Penteava-os e os arrumava num coque frouxo sob sua cabeça delicada. Alguns fios escuros escorriam pelo rosto. Calçava suas sandálias, vestia seu vestido branco, diáfano. Às vezes, dependendo do clima, usava um belo agasalho verde água. Tomava a bolsa com delicadeza e partia em direção ao seu destino.
Entrava na floricultura. A atendente, acostumada, entregava a ela um maço de flores. Sempre lírios, sempre brancos, sempre frescos.
Seguia a via principal e caminhava entre as belas esculturas. Nunca se detinha a observar nenhuma sepultura. Só lhe interessava o leito de Edith. Depositava as flores, abria a bolsa, retirava um lencinho de seda bordado à mão. Durante exatos 30 minutos deixava correr francas lágrimas. Inundava seu rosto, colo, cabelos. Às vezes o rosto inchava. Que dor. Que dor!
Já se tornara um personagem conhecido. A mulher de branco a chorar sobre o leito de Edith.
Alguns diziam serem primas distantes, outros até arriscavam uma irmandade (mas Edith não tivera irmãs, apenas uma filha, morta aos dois anos).
Ninguém sabia ao certo o que fazia aquela moça seguir seu hábito por tanto tempo, com tanta pontualidade. Ninguém podia supor, sequer imaginar, que a mulher de branco a chorar sobre o leito da grande Edith, chorava não apenas pela grande alma ali encerrada, mas também pelas misérias insepultas, que como Edith, ela jamais iria velar, posto que eram chagas, pulsantes e imortais!
Kelly Kalynka - São Paulo, 14 de setembro de 2006
À musa de minha alma romântica, la môme Piaf!Kalynka Cruz |
comentários(1) 12/09/2006 13:15
...
REVÉRBERO
-Bela, sorridente, iluminada.
-Estás a me enganar
Oh, espelho insano!
Hoje a me negar
As primeiras rugas
O primeiro esgar...
Busco-te, espelho,
Alma tão cansada
Eu que era nada
Hoje me defronto
Quase a florescer
Diante deste encontro
Com teu vil reflexo.
Mas é um engano
Não, não posso crer!
Diz-me oh, espelho,
Amante infiel!
Porque não me alcançam
As marcas deste fel?
Porque afrontas e mostras
Sempre uma outra
De olhar encantado?
Impossível aparência
Esta a me rondar
No reflexo que teimas
Maldito, a me mostrar!
Se tantas lutas foram
Tantos amores febris
Tantas lágrimas rubras
Tantos sonhos de infeliz...
Se tanto desamor,
Traição e desengano
Porque oh, falso espelho,
É este de minha alma o sinônimo?
- Mentes. Tu mentes. Nada gentil senhora.
Só faço te mostrar, o resultado imutável,
Da tua alma a suspirar.
Finges enganosamente, triste emoção.
Porque a verdade, não escondes não:
já tem novo dono, teu jovem coração!
-Oh, seu ordinário, denunciador!
De fato, é verdade, tenho um novo amor...
Kelly Kalynka – São Paulo, 11 de setembro de 2006 – 13h
Kalynka Cruz |
comentários(0) 11/09/2006 00:43
Ardósia
Detesto,
A possibilidade dos teus olhos ardentes
Ardósias como grilhões
A acorrentar para si
minhas vontades
Minhas emoções.
Detesto
O encantamento evidente
Que me roubas impunemente
Como se soubesses sempre
De onde tirar esse olhar inocente.
Detesto
Teus olhos a se esgueirar
Perseguir meu pensar
Desde o mais cedo acordar
Até o tardio deitar
Detesto
Tremer diante da luz
Que sinto nestas ardósias
Verdes, cinzas, azuis.
Kelly Kalynka, São Paulo, 10 /09/2006 – 15h55
Kalynka Cruz |
comentários(0) 09/09/2006 12:56
NULL
NO FIM, NADA DÁ CERTO
Decantada a poesia
Resta no chão
Da vida fria
Palavras poucas:
-Solidão, dor e desejo
Feroz, romântica, audaz
assustada, enamorada,
Desencantada.
Em decanto mais um pouco
Revelada a alma triste
Finge mas não resiste
Expondo a realidade em riste:
-Solidão, dor e desejo
Assustada e desencantada.
Romântica, enamorada.
Mas um pouco de pureza
A alma da moça em questão
É exposta em vísceras então:
-Solidão e desejo?
Romântica assustada?
Enamorada desencantada?
Falta-lhe o crivo.
Sobram-lhe os restos.
É o que é:
-No fim, nada dá certo.
Kelly Kalynka
São Paulo, 08/08/2006 - 12h 40Kalynka Cruz |
comentários(0) 04/09/2006 23:54
...
Enquanto o poema não vem....rsrsrsrs...vou de Beatles...essa música realmente tem tudo a ver...
WITH A LITTLE HELP FROM MY FRIENDS
What would you think if I sang out of tune
Would you stand up and walk out on me
Lend me your ears and I'll sing you a song
And I'll try not to sing out of key
Oh, I get by with a little help from my friends
Mmm I get high with a little help from my friends
Mmm I'm gonna try with a little help from my friends
What do iI do when my love is awayv
(Does it worry you to be alone)
How do I feel by the end of the day
(Are you sad because you're on your own)
No, I get by with a little help from my friends
Mmm I get high with a little help from my friends
Mmm I'm gonna try with a little help from my friends
Do you need anybody
I need somebody to love
Could it be anybody
I want somebody to love
Would you believe in a love at first sight
Yes I'm certain that it happens all the time
What do you see when you turn out the light
I can't tell you, but I know it's mine
Oh I get by with a little help from my friends
Mmm I get high with a little help from my friends
Oh I'm gonna try with a little help from my friends
Do you need anybody
I just need somebody to love
Could it be anybody
I want somebody to love
Oh I get by with a little help from my friends
Mmm I´m gonna try with a little help from my friends
Oh I get high with a little help from my friends
Yes I get by with a little help from my friends
With a little help from my friends.
Kalynka Cruz |
comentários(0) 29/08/2006 03:42
HORIZONTE
Parto.
Em parte medo e tristeza
Deixar pra trás a pureza de amar a um só ente
Como se eu fosse criatura demente
A cultivar, ingenuamente, um tosco valor premente.
Chove.
Encharcada poesia, no charco que era jardim.
Sem mim, não me contenho. Se nisto me achei
Onde afinal estarei a largo do triste rei?
Porto.
Marinheiro que não volta. Não aportado.
Ora encantado, noutra desgarrado.
Bêbados, enfadados, nunca enfadonhos.
Venta. O rosto que recebe, tão doce atenção
Não se apercebe que é livre, a partir de então.
Porta.
Entreaberta esteve, embora nunca antes atravessada
É hoje umbral de antigos demônios...
Que terei feito meu Deus?
Que culpa carrego comigo, pois sou como pedra
Quase a alcançar, aquilo que eles chamam lar.
Sanidade.
Porque me alcanças?
Porque me destroças as vãs esperanças?
Sanidade, doença dos pobres espíritos cartesianos
Pensamento puritano...
Não se abata sobre meu ser!
Eu quero, eu preciso, eu espero enlouquecer.
Kelly Kalynka
São Paulo, 29/08/2006 – 03h36Kalynka Cruz |
comentários(0) 28/08/2006 19:52
Oh, realmente desculpe-me! "Se eu me apaixonar, vê se não vai debochar da minha confusão...
Uma vez me apaixonei e não foi o que pensei, estou só desde então..."
(Rita lee - adaptação If I Fell)
Oh, desculpe-me por amá-lo,
Desculpe-me por ser diligente,
Desculpe-me por ainda e sempre,
Amá-lo e por tal não ser inteligente...
Oh, desculpe-me!
Desculpe-me por a seus pés sempre estar,
Desculpe-me pela deliciosa boca desejar,
Desculpe-me por toda me preparar,
Apenas para amar...
Oh, desculpe-me por não esquecê-lo,
Desculpe-me por em minhas preces tê-lo,
Desculpe-me por ser toda devaneio,
Por perfumar os cabelos,
Apenas para nunca recebê-lo...
Oh, desculpe-me!
Desculpe-me pela estupidez,
Desculpe-me pela insensatez,
Por toda essa desfaçatez,
De amá-lo com tanta embriaguez...
Oh, desculpe-me,
Como posso recompensá-lo,
Pelo lamentável fato
De ainda amá-lo?
Kelly Kalynka
São Paulo, 28/08/2006 - 19h10
Kalynka Cruz |
comentários(0) 23/08/2006 14:58
Conforto
Um gosto de não sei que adocicado
Chá de hortelã quente com mel gelado
Chocolate diet de cacau modificado
Assim é você ao meu lado.
Engorda, mas não mata
Ou mata e não engorda?
Esquece qualquer peso ou medida
Só quero ser tua querida
Não mais cultivar ferida
Ou medir o tempo de vida.
É paixão romântica
Ou romance apaixonado?
Não tem importância
O que importa é a constância
De viver esta esperança
Cultivar tuas lembranças
Estar sempre do lado errado
Ou pra sempre ao teu lado?
Prefiro este hoje claro
Que um destino obscuro
Antes amar-te com apuro
que fingir estar no muro!
Kelly Kalynka
São Paulo, 23 de agosto - 14h51
Kalynka Cruz |
comentários(3) 20/08/2006 20:26
HIPOTÉTICO
Minhas mãos tremem nervosamente, como se pudessem por força controlar o nervosismo que me toma ao te encontrar. Tu e teus belos olhos azuis, vazios de importância . Chegastes tarde, tenho certeza. Mas tu não percebes a distância temporal, não enxergas o abismo irracional que nos separa.
Tua proximidade me assusta. Mudo de assunto, pergunto do tempo, olho pela janela e penso no amor que perdi. Mas tu, continuas firme a me provocar. Súbito, percebo suas mãos a afastar o cabelo de meus ombros. Recuo, amedrontada. Quem lhe permitiu tocar meus cabelos, minha pele? Pergunto-me, mas por cansaço, me calo. Se ao menos tu fosses ele, eu permitiria não que me tocasses os cabelos, mas que me abraçasses e saíssemos de mãos dadas a respirar o ar pesado da cidade pulsante e fria. Permitiria que numa manhã de domingo me levasses ao Ibirapuera, onde juntos riríamos das figuras a trafegar pelo parque. A falsa cigana. O barbudo do charuto, que apelidaríamos de Che Guevara. O casal de namorados que se enrosca sem se importar com a bola que passa de lá pra cá por sob suas cabeças, atirada por duas crianças a se deleitarem com o brilho do sol.
Se tu fosses meu amor, eu te permitiria subir, te faria o meu famoso café, te convidaria a sentar-se na sala. Abriria a janela e fecharia a cortina. Tiraria teus sapatos e tocaria teus pés carinhosamente. Te permitiria escutar minhas músicas preferidas, te abraçaria, deitaria em teu colo, sorriria de tuas piadas, sentiria o toque de tuas mãos em meus cabelos e te responderia sorrindo que não, ao perguntares se era pintado o negro dos meus fios. Se tu fosses o meu amor, eu abriria a bebida comprada especialmente para o teu aniversário, dançaria pra te encantar, tiraria os sapatos, abriria a blusa, sentaria no teu colo e ficaria à vontade com tuas mãos a passear por minha cintura. Se tu fosses o meu amor, não te deixaria sair. Brincaria de te mostrar pedaços de poemas, escondidos nas palavras mais simples. Mostraria meus livros, te leria minhas poesia preferidas, te falaria da vida, de tudo o que pretendesses saber sobre mim. Falaria da minha origem, te contaria das minhas vitórias, te revelaria meus sonhos constantes. E o teu sorriso tão branco, a tua pele tão alva, o teu perfume tão forte, teriam um sentido diferente para mim. Tuas mãos não seriam apenas tuas mãos, seriam as mãos de meu amado, beijadas e tocadas à exaustão. Se tu fosses o meu amor, teus cabelos castanhos seriam levemente grisalhos, teus olhos azuis e amendoados seriam pequenos e vividos. Se tu fosses o meu amor, tu serias uma alma gigante a preencher um corpo delicado. E se assim fosse, eu me viraria desta janela e te entregaria por vontade própria e apaixonadamente o beijo que tentas roubar. Se tu fosses o meu amor, não seria a dor a cegar meu coração e sim a embriaguez por estar nos braços de quem nasci para amar.
Kelly Kalynka
São Paulo, 19/08/2006, 21h15
Ao amor que não tive, quiçá terei...
Kalynka Cruz |
comentários(0) 20/08/2006 17:22
...
Errante navegante em terra distante
Sou de uma matéria chamada desejo
Minha boca é meu Tejo
A banhar com suave beijo
Tu náufrago viajante
Que vens de mares distantes.
Sou de uma matéria chamada esperança
Meu peito é um porto
A suportar a cruel ânsia
De esperar com constância
Quem dele guarda distância.
Sou de uma matéria chamada desejo
Minha boca é meu Tejo
A dominar o navegante bravio
Que se afronta e mostra brio
Mas se ajoelha febril
Ao sentir sob a fina pele
O úmido toque do rio...
Sou de uma matéria chamada esperança
Meu peito é teu porto
A aguardar-te frágil navegante
Que mesmo em terras distantes
Já por ti devassadas d’antes
Não bebes, nem comes, sem antes
Lembrar-se de mim por instantes.
Kelly Kalynka
São Paulo – 20/08/2006 – 4h21
Kalynka Cruz |
comentários(2) 18/08/2006 03:54
...
Passarinho
Lembra,
Gentil passarinho,
Procuravas ninho
Bem devagarinho
Gracioso mimo
Logo ao amanhecer?
Vinhas
Ao raiar o dia
Trazer poesia
À vida vazia...
Dar-lhe um porquê.
Voltes
Doce passarinho
Que este vazio ninho
Não é mais quentinho
Longe de você.
Kelly Kalynka
São Paulo - 3h51
É preciso coragem pra sobreviver...Kalynka Cruz |
comentários(0) 18/08/2006 00:07
ASFIXIA
Eu quero respirar,
Deixe-me respirar.
Devolva-me o ar,
Que me roubastes em segundos passados.
Devolva-me o ar,
Solte meus braços.
Livre meus passos,
Não seja tolo
Não é liberdade
Não é liberdade a que quero retomar,
Esta sempre foi minha!
O ar roubado está
Nos beijos vicejantes
Que deixastes crescer
Por entre as pedras do teu coração.
Devolva-mos
Não os detenha
Deixe-os florescer
Preciso deles pra viver.
São a prova de que
Não é árida a alma tocada
São a prova de que o nada alegado
É tudo, tudo o que eu pensava ser.
Eu quero respirar,
Deixe-me respirar.
Devolva-me o ar,
Roubado por mim de tua fabulosa boca.
Aaaaah!
Kelly Kalynka
16/08 - Sampa - 10h45
Kalynka Cruz |
comentários(0) 16/08/2006 02:53
...
Nua
Eu que sou tão tua
Tua
Só tua
Nua
Nessa noite imensa.
Em que vejo da janela,
Ela
A lua, a lua
Da minha rua...
Escondida atrás da torre da igreja
Viceja
Veja, veja,
Como cresce o meu amor.
Eu que sou tão quente
Quente, como fogo ardente
Ardente, nua e tua
A olhar a rua
E pensar na escura
Noite em que
Demente,
Poderei ser tua
Nua, nua
A olhar a lua
Entre os beijos teus.
Kelly Kalynka
São Paulo - 02h35Kalynka Cruz |
comentários(1) 15/08/2006 00:24
Fractais
Pele, sexo, pressão.
Minha mente vacila,
Adoração.
Cheiro, língua e lambida.
Minha mente atormenta-se,
Embevecida.
Pressão, mamilo e saliva.
Minha mente desloca-se,
Enlouquecida.
Quatro, joelho, cabelo
Minha mente ardorosa,
Devaneio.
Quarto, silêncio, lembranças.
Minha mente anda cheia,
Esperanças!
Kelly Kalynka
Sampa - 03h05
Kalynka Cruz |
comentários(1) 08/08/2006 12:11
...
MINHA ANINHA
A menina mais linda que eu vi
Não consome Coca-Cola
Só suco natural,
Mamão e cereal!
Usa minhas pulseiras
Pega minhas blusas
Não gosta de café
Só chocolate
Maçã e uva.
A menina mais linda que eu vi
Chama-se Anna Luiza
Tem uma pele muito branca
E sorriso de Mona lisa.
É cheia de mistérios
Esconde-se das visitas
E me olha muito sério!
A menina mais linda que eu vi
Usa muitos laços de fita
Eu a chamo minha filha
E ela a mim de mamita!
Lê sempre concentrada
Os livros da minha estante
E depois repete enfadada
Sei tudo mais que d’antes!
A menina mais linda que eu vi
Entende tudo sem explicação
E por saber as coisas
Com muita antecipação
É uma linda geniosa
É a dona da razão.
Mas quando se sente sozinha
Vem pro meu colo lindinha
Fazendo voz de criancinha
Ela é enfim a minha Aninha!
Kelly Kalynka
Mamita
Kalynka Cruz |
comentários(0) 06/08/2006 11:58
O LOIRO
Estava bêbada. Completamente. Vamos embora, pediu mais uma vez à amiga que insistia em ficar no bar.
- Ah, não, tá cheio de homem lindo aqui, fala sério Dora eu ir embora agora. Tem um loirinho lindo ali olhando pra mesa...acho que é pra mim!
-Ai, ai...Não é pra você que ele tá olhando não sua tonta, é pra mim e eu não tô a fim de nenhum amarelo ouro me secando. Fala sério. Não suporto homem louro, portanto, vamos embora – Sentenciou Dora, levantando a sobrancelha direita em sinal de impaciência.
- Ai, é verdade, agora que você se virou pra lá, percebi mesmo que está te olhando.
- Então, mais um motivo pra irmos embora, você está interessada num tonto que está interessado em mim. Vamos! - Mas, antes que Dora se movimentasse o loirinho se aproximou dançando.
Pronto, um Paquito, pensou.
- Dá licença querido, que a titia quer passar!
- Não dou, desde que você passou do banheiro que não tiro os olhos de você, morena dos cabelos cheirosos.
- Cabelos cheirosos num pub? Fala sério! Arranja outra desculpa melhor pra me cantar.
- Tá bom, morena do casaco branco charmoso...
- Hahaha! Quer? Eu lhe empresto o casaco!
- Quero a dona!
- Não dá foi leiloada!
- Ah que pena, pra quem?
- Pra quem não, pra onde...
- Pra onde?
- Pro quinto dos infernos, agora deixa eu ir que o elevador que desce só passa uma vez na noite!
- Nossa, que humor negro. Gostei. Melhor, amei! Deixa eu te levar em casa.
- Que levar em casa o quê menino, quantos anos você tem, 12?
- Hahahahaha!!! Pôxa, obrigada...eu tenho 27! Mas a idade não tem nada a ver...
- Ahã...tá dizendo...
- Então me dá teu telefone, já que não posso te deixar em casa...
- O número eu dou...pega aí, vai que eu me arrependo amanhã...8246...
- Posso te ligar?
- Dã. Não, eu te dei o número pra você jogar na loteria, sacou?
- Você é hilária e irônica, se não fosse tão gostosa, eu já tinha desistido!
- Gostosa? Você acha? Hummm, palavras que me agradam...Que mais?
- Gostosa, tesão, linda, apetitosa, máquina....
- Que mais?
- Gostosa de novo, bunda linda, sensual, quente...
- Gostei. Quer me levar em casa mesmo? Tá bom, eu deixo. Se fizermos uma escala antes...
- Só se for agora!
Dora seguiu com o loirinho. Sabia que o dia seguinte seria de arrependimento. Um bebê de 27 anos. A diferença de idade nem era tão grande, mas decerto era uma velha mentalmente perto daquele garotinho que nem formado era ainda, largara a faculdade para ser professor de tênis e montar sua academia, um filhinho de papai que se auto-intitulava de empresário.
Entraram no quarto do rapaz. Um verdadeiro oásis de luxo e perdição. Uma banheira redonda de hidromassagem, uma cama enorme, homme theater e para o espanto de Dora, incenso. Ela adorava incenso! Nada teria lhe causado melhor bem estar do que aquele cheiro excitante de Ylang Ylang.
Este Paquito está me surpreendendo, pensou. Mas o pensamento não teve consecução pois foi atacada pelo loirinho que a agarrou com verdadeiro apetite. Mordeu suas coxas com vontade, lambeu-as. Mordeu seu sexo levemente, suas costas. Beijou o pescoço, enfiou a mão na nuca de Dora, puxando-a pelos cabelos e prometeu que naquela noite ele seria seu escravo. Dora vibrou, um escravo loiro de 27 anos, nem nas consultas de sua paciente ninfomaníaca teria ouvido tamanha fantasia se concretizar. Um escravo sexual, loiro, tenista, lindo e bom de cama. Suas amigas mais velhas matariam para ter um amante assim. Um contra-senso um menino daquela idade com toda aquela experiência. Quase um puto pensou...e riu-se.
Que ânimo tinha o rapaz, horas sem largá-la. Por cima, de lado, de quatro, em pé, na banheira, por cima outra vez. As horas de sexo selvagem fizeram Dora esquecer que estava com um menino daquela idade. Às cinco da manhã, exausta pensou, estou apaixonada.
Pediu que a levasse em casa, no dia seguinte já pensava num cineminha, jantar. O loiro retribuía o interesse. Você é muito divertida, gostosa, lindinha. Quero te encontrar a semana inteira. Amanhã vamos nos ver de novo. E se arrumaram para deixar Dora em casa.
No caminho, no carro, Dora se prepara para aprofundar o conhecimento sobre o loiro, afinal, nem só de sexo este caso (ou seria namoro) duraria...
-Quer dizer que você largou a facul? Que pena. Mas pelo menos se dedica ao tênis. O importante é não deixar a mente parada. Mas me diga, o que você anda lendo pra compensar a falta de estudar? O que você gosta de ler?
-Eu...sei lá lindinha, faz tempo que eu não leio...mas Paulo Coelho é legal, eu li Diário de um Mago....muito profundo...
Nãããão!!! Praguejou mentalmente Dora, mas até mesmo um professor universitário seu amigo lia Paulo Coelho, porque o loirinho não poderia...
- Mas eu leio tudo, por exemplo...
Ufa, ele tem outras preferências, pensou Dora.
- Também gosto dessa literatura moderna. O Dan Brown, fabuloso, não conseguia parar de ler Código Da Vinci, aquele livro... a nova literatura tem dessas coisas, prende a gente né...
-Quê?
-Quê o que?
-Que você disse? Você disse Paulo Coelho e Dan Brown? Você disse nova Literatura?
-Disse...
-Pára o carro!
-Porquê?
-Pára agora!
Assustado o loirinho freou o Audi prateado...
- Dora desceu correndo, jogou um dinheiro no banco e gritou para o táxi que passava...
Táxi, táxi...o carro parou, Dora abriu a porta e antes de entrar olhou para o loirinho atônito...
-Que houve? Perguntou o rapaz, que estava vermelho e surpreso.
-Nada não, vai estudar meu filho. Esse dinheiro aí é para a gasolina...motorista, Bela Cintra, urgente, por favor....
-Mas Dora! Gritou o loirinho.
-Nem mais, nem menos...adeus – No caminho, com raiva, pensou...Meu Deus, para onde caminhará a humanidade???
_____
Kelly Kalynka
05/08/2006 - Sampa
Kalynka Cruz |
comentários(1) 01/08/2006 12:15
Absinto - Receita Original
(Receita indicada apenas às mulheres portadoras de depressão!)
À maneira do século XXI
2 colheres pequenas de açúcar
Lágrimas de depressão
2 doses de absinto
Um poema de Borges
Em seguida despeje lentamente água mineral dentro do copo.
Beba sem moderação
Repita a dose
Fique sem noção
Durma no chão e
Aproveite pra pedir à fada verde
Que a conserve sempre amarga.
Kelly Kalynka
31/07/2006 - SP
______
Kalynka Cruz |
comentários(2) 31/07/2006 21:25
KALYNKA E SEU AMOR De um manto negro chamado morte
Surge o mensageiro e sua consorte
A buscar a alma perdida
Da orfã já fenecida.
A prestar atenção naquele caixão
De longe um estranho
Passa por mental confusão:
Que pele macia lhe trouxe a morte
Os cabelos negros num alo em esplendor
Enfeitam o rosto da morta de amor!
Do lado esquerdo a cair de pranto
Encontra-se outra moça de igual valor
Os mesmos olhos, a mesma dor
E os cabelos a enfeitar são também da negra cor!
Sombras de dúvidas pairam no ar...
Que velas aqui tão bela dama?
Pergunta o homem que não a ama.
Eu velo minha alma que esta perdida
Morreu de dor, enlouquecia.
Não a vês no caixão da morte aquiescida?
Mas como pôde morrer assim,
Se era tão bela, olhos tão negros,
lábios carmim?
Morreu estranho porque amava.
Porque no amor acreditava.
E nele suas preces depositava.
Mas se é tão belo o amor
Porque, minha dama, deixaste morrer
Esta alma feliz?
Porque a sentença, doce estrangeiro,
É que o amado não a quis.
Dos beijos mais doces ela provou
Da alma mais bela teve companhia
E por isso morreu em agonia
Na pranteada partida do fatídico dia!
Como viveria minha alma
Após conhecer outrem igual?
Após suspirar e arfar
Em meio a tamanho encanto carnal?
Foi a mais amada e a mais querida.
Entregou seu corpo, seus prazeres e
Toda sua vida.
E se foi assim totalmente lasciva
Foi também pura a alma cativa.
Entregue a um só amor
Morreu, explico-te, estranho, entendas!
Morreu no dissabor de ser afrontada
Com a verdade já apurada!
Era uma alma de um homem somente
E se dele não pôde ser plenamente
Foi jogada à devassidão e à morte
Duas serpentes que a queriam em boa sorte.
Escolheu a segunda, por fielmente crer
Que uma mulher que ama um ser
não deve nunca a outro pertencer!
Que triste história a me contar,
Calma jovem vejo-te soluçar...
Não chores tanto não é o fim,
Às de amar um outro assim!
Logo se vê, como tu és tolo,
O homem que bebeu de minha saliva
Igual nunca encontrarei, nesta,
Nem em outra vida!
E morre também a moça a velar.
K.K.
Kalynka Cruz |
comentários(0) 31/07/2006 21:23
POEMA TOLINHO
Não me guarde, como uma carta esquecida dentro de um livro, na gaveta do teu quarto...
Pois assim estarei como perdida!
Não me guarde na memória, como uma lembrança feliz, porque até mesmo as lembranças mais vívidas acabam por ser olvidadas.
Na verdade, não me guarde de forma alguma. A hora é esta, a hora de amar. Não espere por um milagre nem que Deus lhe pague pela fidelidade...
Me toque, me amasse, me encontre, me ame, no meio da festa, num fracassado bordel, no meio da rua, num quarto de hotel...
Eu não sou a única, nem a matriz, nem a original, mas sou só tua e ajo como tal!
Me tire da rua, dos guardados, do passado.
Eu sou o hoje, eu aqui estou, esperando paciente que você decida finalmente, entregar-se plenamente a este sentimento indecente, que tomou meu coração e o teu fielmente!
Julinha da Adelaide
Kalynka Cruz |
comentários(0) 31/07/2006 21:21
RETÓRICA
Minha esposa me chama, diz o cavalheiro.
Fica mais um pouco, não custa nada,
Implora a menina ao seu lado encantada.
Não posso menina ficar assim,
Ela é minha dona e zela por mim.
Se ela é tua dona o que serei eu?
Pergunta a menina de olhos de breu.
Você é menina que passa
Que encanta meus dias e me enche de graça.
Então cavalheiro, porque não podes ficar
Se eu a tua vida só faço alegrar?
Ai tola menina, não sabes não,
Que um cavalheiro tem obrigação
De cuidar daquilo pelo que fez opção?
Não posso, não posso e não quero
Esta lógica amado entender
Para mim o que vale na vida
É sentir, é amar, é viver!
Quem dera menina pensasse assim,
Mas não é o que a vida trouxe pra mim.
Eu tenho meu castelo tão bem construído,
Forjado com fogo e sob pedras erguido!
Mas eu sempre soube cavalheiro tão amado,
Que este alicerce não podia ser derrubado.
Só o que te peço é mais atenção,
Que me leve no colo e no coração.
Mas eu já te disse vezes sem fim,
Não vou te esquecer, já estás em mim.
Se estou em ti, fica mais um bocado
Prova pra mim que estás apaixonado!
E nesse diálogo que uma noite durou
O gentil cavalheiro, mais uma vez ficou.
Kelly Kalynka
(Fala sério, versos proféticos!)
Kalynka Cruz |
comentários(0) 31/07/2006 21:18
FOTOGRAFIA
E de te ver assim tão imutável,
Grave, mas encantador...
É que prevejo a sentença:
É para breve a dor de amor!
Todas distâncias eu venceria,
Se nenhuma fosse a distância
Guardada em teu puro peito.
Que mesmo me amando
Do seu escondido jeito,
Consegue negar nosso amor temporão,
Que dizes chegado na hora ingrata,
E por isso recebe teu não!
E se agora com toda urgência
Amo-te e sou devorada,
Devo em breve seguir minha estrada,
Arrastando minha alma inanimada,
que decerto, não nasceu pra ser amada...
Mas tão somente para colocar-se a teus pés encantada
E te mostrar a irretocada instantânea fotografia
De uma vida que tudo seria, mas que enfim não é nada!
Kelly Kalynka
Kalynka Cruz |
comentários(0) 31/07/2006 21:16
ARREPIO
Ao se aproximarem quase em toque os lábios a falar
A eriçada pele, desavergonhada, me entregou.
Se minha mente não quer nem em ti pensar,
Não esquece, no entanto, a pele que te amou!
Kelly Kalynka
Kalynka Cruz |
comentários(0) 31/07/2006 21:14
PERFEITINHA
-Alou, pai?
-Oi filho, quanto tempo, lembrou do seu velho é?
-Pôxa, tô precisando de umas dicas suas, como você é experiente em tudo...
-Fala filhão.
-É o seguinte, eu ganhei um avião...
-Avião meu filho, como assim, ganhou um avião?
-Hahaha. Ganhei uma menina, uma gata, um avião. Linda e divertida.
-Hummm, desde quando isso é problema?
-Ah pai, desde que ela veio morar comigo, há um mês. Tô enrolado pai. Eu gosto dela, ela é gostosa, divertida, inteligente até...mas pai, eu tô pra ficar louco com uns problemas aí...
-Manda embora meu filho!
-Não posso pai, tô apaixonado...caidasso, pneus arriados.
-Ah, agora é um problema!!! Mas o que ela faz que te enlouquece?
-É assim. Ela falou que faz um mês que nós estamos juntos e não ganhou nenhum presente de aniversário. Aí eu fui no shopping e comprei uma super televisão, plasma e tal, para colocarmos no quarto e podermos assistir filmes juntos na cama. Ela ficou emburrada. Falou que queria um presente pra ela. Eu tá, entendi e aí fui comprei uma blusa decotada. A blusa ficou grande ela chorou dizendo que eu queria que ela tivesse os peitos grandes. Mas pai, os peitos dela são ótimos, cabem na minha mão...
-Sei filho, sei...
-Aí eu disse, vamos no shopping pra você escolher então. Aí ela reclamou que não era romântico ela escolher, mas foi. No shopping pai, ela escolheu um vestido. Costa nua, curto. Vestiu o vestido e perguntou se estava bom, eu olhei e disse que tava legal sim. Ela fez cara feia e disse que eu não sentia ciúmes dela porque ela tinha colocado o decote e eu não falei nada, que eu estava jogando ela aos leões, que eu não gostava dela. Aí eu disse, é verdade, tá decotado mesmo, mas eu respeito sua decisão. Aí ela disse, ah, amor, então eu vou trocar e pegou outro vestido e foi experimentar.
Nessa hora a vendedora veio me perguntar se ela estava gostando da roupa, etc. Eu disse sim, e a moça tocou no meu braço, dizendo que bom então. Nessa hora pai, ela saiu do vestiário e deu um escândalo. Que eu estava dando em cima da vendedora e não comprou mais roupa nenhuma. E eu, andando atrás dela parece um cachorro. Aí voltamos pra casa e ela de novo reclamava que não ganhou nenhum presente...ontem à noite eu fui dormir na sala..
-Manda embora meu filho, manda embora...dormir na sala, imagine!
-Mas eu não dormi na sala, eu fui dormir na sala, mas aí ela apareceu de camisola, enrolando os dedos naqueles cabelos castanhos e encaracolados e me levou pro quarto, eu fui dormir já era cinco da manhã...
- Aí hoje de manhã, lá pelas 9 horas, eu dei minha carteira pra ela e ela foi pro shopping de novo.
-Ah, meu filho, para quê me ligar, se você já encontrou sozinho a solução?
-É que eu queria saber umas dicas de aplicação financeira...
Kelly Kalynka
Kalynka Cruz |
comentários(0) 31/07/2006 21:13
CAFÉ COM BOLO
Arrumava as malas para a viagem. Ficaria longe dos filhos de sete, dez e quinze anos por quatro meses. Um pesadelo. Acordava todas as noites sobressaltada, chamando pelas crianças. Poderia desistir da viagem, mas desistir seria enterrar-se para sempre naquela vida medíocre de graduada. Desistir da viagem seria na verdade desistir de muitos outros sonhos interligados. No fundo a viagem seria boa para todos, porque possibilitaria a ela um crescimento na carreira já estagnada. A viagem traria à tona medos enterrados, desenterraria mortos que ela não queria mais rever. Mas a mente inquieta não a perdoara e foi surpreendida com outra lembrança quase apagada.
-Vou embora. Vocês se preparem! - Bradava a jovem mulher para as quatro criaturas que a olhavam perdidas. Uma menina prestes a completar sete anos, e três garotos de cinco, quatro e três anos respectivamente.
-Mas mãe... Você não pode, você é a mãe - Tentava argumentar em sua inocência quase uterina, o pequeno garoto de quatro anos. Branquinho, cabelos lisos a cair em cima dos olhos.
-Vem cá meu filho, abraçou-o a mulher.
Era seu preferido aquele. De longe, observava-a enciumada a filha mais velha. Um rosto enfezado, testa franzida, cabelo no rosto, parcialmente presos nos lábios fininhos de criança. Ficava nervosa e o cabelo vinha para o rosto e preso em parte pelos lábios fortemente cerrados. Os olhos fuzilavam o pobre irmão caçula que não tinha culpa alguma de ser o preferido daquela mãe que definitivamente, não havia nascido para ser mãe. Enquanto se perdia em seu ciúme, lembrou da avó. Ah, que conforto. A sua boa avó a lhe dar o carinho nunca recebido pela mãe.
-Mãe se você for embora posso ir morar com a vovó?
-Pode.
-Posso ir logo hoje morar com ela?
-Não.
-Por quê? Você nem pára em casa, você nem cuida da gente. Ontem você nem fez almoço, papai que chegou e comprou comida pronta. Eu não gosto de passar fome não e eu já me queimei no fogão.
-Pode, menina. Pode. Você fala demais, eu hein!
No peito a menina sentiu uma pontada muito forte de decepção. Na verdade esperava que a mãe não a deixasse, que a abraçasse e dissesse que ia ficar e mudar sua maneira de ser. Mas para sua infelicidade ela jamais ouviria isso da mulher que partiria dali a alguns dias, em definitivo, para nunca mais voltar.
Do seu lado os irmãos igualmente desprezados a olhavam como se esperassem que ela os abraçasse, mas ela não sentia nenhuma vontade de abraçar ninguém. Gostaria na verdade de ser abraçada, mas não resistiu aos olhares tristes e colocou nos seus finos braços os outros dois irmãos assustados. Não poderia imaginar que toda a sua vida seria assim, ela a fortaleza, ela a dona dos abraços, sem nunca receber um que lhe confortasse e acalmasse a alma, a não ser, claro, os da avó.
Era o porto seguro dos garotos. A líder. Inventava brincadeiras, cozinhava pra eles quando a mãe esquecia do almoço. Não se podia dizer que era um almoço. Eram enlatados que ela esquentava. Ah, e o café! Ela sabia desde os cinco fazer um café muito cheiroso, aprendera a ler com o pai e a fazer café, sozinha, lendo a receita. Por isso, adquirira já nesta idade o gosto pelo café. Odiava leite porque tinha bolinhas e suas mãos pequenas não davam conta de desfazer as bolas, portanto, já nesta idade, decidira que não tomaria mais leite. Nem mesmo sob o apelo do seu preocupado pai quando estava em casa. Arriscava-se também a fazer leite para os irmãos. Um leite aguado que eles aceitavam sorridentes.
Após o diálogo com a mãe, foi interpelada pelo irmão com uma inusitada pergunta:
-Mana, se “ela” vai embora e você morar com a vovó, quem vai fazer café pra gente?
-Você!
-Eu não sei não...
-Olha, eu te ensino a medida, mas você pode ler na caixa do filtro de papel, tem receita lá.
-Mas eu não sei ler...
-Você é burro hein! Eu sei ler desde os cinco anos, aprendi com o papai!
-É, mas o papai ainda não me ensinou...
-Ai burro...tá eu te ensino antes de eu ir morar com a vovó. Aí você pode fazer café e bolo.
-Porque bolo?
- Porque tem a receita na caixa bobo...
- Ahn...
Kelly Kalynka
Kalynka Cruz |
comentários(0) 31/07/2006 21:11
A FERA
Estou em pedaços.
Minha alma foi esquartejada
Atacada ferozmente
Desfez-se a unha e dente
Ao se expor tão displicente
À fera maledicente!
Maldita fera encantada
A me arrastar pela estrada!
Fera das noites insones
Das loucuras, dos ciúmes
Dos desarrumados costumes!
Fera inesperada!
Estraçalhou minha razão,
Deitou-me a sanidade no chão
Devorou-me o coração
E colocou sim, onde havia não!
Levou-me p’ra seu cativeiro
Alma, boca, corpo inteiro!
Lambeu-me, provou-me o sabor,
Esta fera sublime,
Chamada amor!
Kelly Kalynka
Kalynka Cruz |
comentários(0) 31/07/2006 21:09
COBRA DE VIDRO Poema escrito para Miss por ocasião de sua
expulsão da comunidade Literatocracia
Olhe que a vida não é assim
Se hoje uso batom carmim
Não quer dizer meu desavim
Que sou puta ou uma xinfrim!
Se tu me julgas, só pela capa
E te recalcas pelo que vês
Decerto está a comer napa
Pensando ser um bom burguês!
Acorda então dessa loucura
Não pesa em pedra a carne crua
Não avalia só pelo vento
Escuta tudo, e a contento!
Se aquela ali tu chamas cobra
Apenas porque critica tua obra,
Veja bem que te acontece
Pois és tu ela
Quem não mereces!
Kelly Kalynka (Em 11/07/2006)
Kalynka Cruz |
comentários(0) 31/07/2006 21:06
Off line
Eu hoje estou mais velha,
Agora dei pra envelhecer.
Dei pra esquecer certo nome,
E até deixei de comer.
Eu hoje estou mais calada,
Por isso deixei de falar.
Brigar não faz mais sentido,
Tão pouco confabular!
Eu hoje estou tão contida,
Os gestos quase não saem,
Os sorrisos não os esboço,
Com a solidão, nada posso!
Eu hoje estou quase morta
Porque se não leio teu nome
A vida pouco me importa
E minh’alma assim se consome!
Kelly Kalynka
02h27 - 15/07/06
Kalynka Cruz |
comentários(0) 31/07/2006 21:05
...
O vil apaixonado
A alma, cansada do teimar,
Deposita as maculadas vestes
No espaldar a descansar.
Inerte, quase a desistir de viver,
A alma busca com ela mesma se entreter.
Coitada, ao a lida avaliar,
Percebe só perder, nada ganhar.
E tenta chorar desabafando...
Não pode, pois a tola está amando!
Não bastassem as agruras do existir,
A alma, ainda ousa vida dividir!
Oh, pobre, perdida e alucinada,
Não entende como está
A cada hora mais tomada.
Pelas mãos de um nefasto ateu.
Que rouba! Sonhos, dias, suspiros seus...
O vil, ao se aperceber do reinado
Sorri, por estar também apaixonado!
O vil acorrentado
A alma, cansada do teimar,
Deposita as maculadas vestes
No espaldar a descansar.
Inerte, quase a desistir de viver,
A alma busca com ela mesma se entreter.
Coitada, ao a lida avaliar,
Percebe só perder, nada ganhar.
E tenta chorar desabafando...
Não pode, pois a tola está amando!
Não bastassem as agruras do existir,
A alma, ainda ousa vida dividir!
Oh, pobre, perdida e alucinada,
Não percebe estar sendo deprezada
Pelos olhos de um nefasto ser ateu.
Que lhe nega o sonho
e devolve incólumes, suspiros seus...
O vil, ao se aperceber do tal reinado
Recua, não quer se ver atormentado,
Pois ele já abriu mão da ilusão,
Ao ter já acorrentado o coração.
Kalynka Cruz |
comentários(0) 31/07/2006 21:04
OCASO
Ele se foi,
Seria a última vez que eu o veria vestido com estas cores
Seria a última vez que eu o veria
Desta janela, a debruçar-me sobre o rio.
Ingrato, eu que tantas vezes o esperei para lhe dar adeus
Foi-se sem se despedir, sem nutrir de beleza os olhos meus!
Volta amanhã, todo radiante,
Mas vestido de concreto!
E eu, tão apaixonada pela sua beleza ornada de florais cores
Sofrerei, é certo. Mais do que sofri por todos meus desamores...
K.K.
24/07/2006
18H30
Belém/Pará
Kalynka Cruz |
comentários(0) 31/07/2006 21:01
NÃO MORREM OS AMANTES
Segurei tua mão
Mas tivestes medo.
Abracei teu corpo
Mas assim tremeu.
Te dei minhas vestes
E tu me dissestes:
Eu não quero nada do que seja teu!
Caí.
Incontido pranto.
Deparei-me com
O vulgo desencanto.
Juro quis morrer,
Pelo não querer.
Mas assim não pude
Porque amiúde,
Não morrem os amantes,
Para meu desespero,
Tão fácil e tão ligeiro.
Os seres que
amam tão profundo,
Morrem bem mais lento
Neste triste mundo.
E por isso estou
Ainda a respirar
Este ar imundo,
Que se chama amar!
Julinha da Adelaide
(Voltei pois A COVARDE não quer assumir minha dor!)
Kalynka Cruz |
comentários(0) 31/07/2006 21:00
A MORTE DA LAVADEIRA
Desce a ladeira
Sozinha e cansada
Ela é lavadeira
Não sabe de nada
Criou bem os filhos,
Um deles é doutor
O outro só rouba
Mas tem muito amor.
A menina mais nova
Só anda arrumada
Pega caminhoneiro
Na beira da estrada.
Desce a ladeira
Anda desgostosa
Pro velho marido
Nunca foi formosa.
E agora sozinha
Não sabe o que quer
Na sua cozinha,
Só a pobre mulher.
O filho ladrão lhe faz companhia
Quando não está na delegacia.
A filha que é puta
Reclama um bocado
Se não fosse pobre, tinha namorado!
O filho doutor, uma negação
Só liga de ano e manda um tostão.
O velho marido
Safado e assanhado
Logo se amigou,
Com a vizinha do lado.
Desce a ladeira
Sozinha e cansada
Não olha pro lado
Não pensa em mais nada
Ficou no fogão a comida guardada
Agora a tristeza:
Lavadeira na estrada!
K.K.
Kalynka Cruz |
comentários(0) 31/07/2006 20:52
ETA
Dora colocou a roupa na máquina de lavar e aproveitou para continuar a leitura de Crime e Castigo, de Dostoiévski. Andava relendo os clássicos. Não agüentava aquelas vulgaridades que se publicava ultimamente. Teorias disso, teoria daquilo, estórias dentro da história. Enfim, literatura barata, que pelo menos servia ao propósito de fazer a massa ler. Mas ela, leitora assídua e voraz, não precisava de livros como estes. Aliás, voraz, era a palavra certa para Dora. Ela era voraz. Para livros, para a vida e para os homens. Enquanto esperava na lavanderia o fim da batida de roupa, acendeu um cigarro. Sampoerna, verde. Observou a atendente da lavanderia olhar de cara feia, mas não ligava, estava pagando, fumaria lá, onde quisesse, além de que não havia ninguém mais no local. Distraída, Dora deixava as pernas de fora. O vestido preto, de uma malha fina escorria pelas suas coxas. As coxas de Dora, testemunhas de proezas com certeza nunca imaginadas pela atendente magricela e anêmica que a olhava de cara feia. Enquanto se perdia na leitura e enrolava os cachos dos cabelos espessos nos dedos, não percebeu a entrada de um homem moreno, quase 1, 80, traços fortes. O homem calçava um tênis All Star desgastado. Usava uma calça jeans rasgada no joelho, jaqueta de couro encobrindo uma camiseta verde do The Clash. Tinha cabelos compridos e os olhos escuros protegidos por um Raiban. Trazia uma mochila velha nas costas.
Dirigiu-se à atendente, comprou fichas e arrumou suas roupas para serem lavadas na máquina ao lado de Dora. Ele a percebeu de imediato e desde este momento não conseguiu mais tirar os olhos das coxas de Dora. Ela, que não costumava sair de sua leitura por nada no universo, sentiu o perfume do homem ao seu lado, Azzarô. Ah, perfumes. A eles Dora não resistia, resolveu dar uma olhadinha na criatura.
Um homem, rosto forte, traços espanhóis? Perguntou-se. Era péssima com este tipo de identificação. Mais tarde descobriria que não tinha errado tanto. Hiram era um basco. Apesar de detestar homens morenos, aquele ao seu lado, testosterona saindo pelos poros, chamou sua atenção de verdade. Lembrou os bons tempos, os passeios de moto, os encontros regados a álcool e um bom e selvagem sexo. Mas, desde que se separara andava mais ou menos uns seis meses sem pensar no assunto. Na verdade pensava, e muito, mas não fazia. Só idiotas no seu caminho. Idiotas e burros. No dia anterior recebera a ligação de um ex, com quem havia vivido tórridos encontros sexuais, ainda na faculdade, mas aquele babaca não a interessava. Havia se separado da mulher, queria vê-la. Mas, sinceramente, ele nunca deixara a namorada virgem quando estavam juntos, e agora separado da mulher, que devia ser uma vaca frígida, queria vê-la. Imagine. Tivera sua chance. Era adeus e pra nunca mais.
No consultório - era psicóloga - até aparecera um paciente muito interessante. Sorriso lindo, olhos brilhantes, branquinho, pele linda, boca promissora e perfeita, traços finos e inteligência aguda. Mas, em nome da ética, passou o rapaz para outra amiga psicóloga, que não teve os mesmos pudores e tratou o rapaz com métodos nada convencionais...
Por este motivo o homem ao seu lado, acabou por lhe chamar a atenção. Percebeu o interesse nas suas coxas. Jogou o corpo pra frente e cruzou as pernas, divertindo-se vendo os olhos do moreno ganharem um brilho obsediador ao ver que o vestido escorria ainda mais, revelando quase toda a coxa de Dora. Começara a caça. Jogou os cabelos para trás revelando os ombros no vestido decotado. Os seios evidentes. Dora nunca usava sutiã.
- Oi. – Cumprimentou Dora.
- Oi gata. – Atacou de primeira o rapaz.
- Como tu te chamas?
- Hiram. E você?
- Pode me chamar de gata mesmo.
- Você tem bom humor – respondeu sorrindo, Hiram.
- É, eu tenho.
- Que você está lendo?
- Relendo. Crime e Castigo, não está vendo?
- Ah, muito bom, eu gosto.
- Não, você não tem cara de quem gosta de Dostoievski, você tem cara de quem gosta de Bukowski e Sade.
Hiram gargalhou e respondeu:
-Tem razão, sou amarrado nos dois. E aí, vai daqui pra onde?
- Não sei, que tal um chope?
-Moça decidida hein. Ok. Uma boa pedida para uma tarde de sábado.
Saíram da lavanderia com suas sacolas. Hiram seguiu o carro de Dora e encostaram num bar.
Três chopes depois, Dora, mostrando-se entediada. Hiram tentava diverti-la contando suas proezas. Estavam sentados numa mesa nos fundos do bar, encostados numa parede. Sentiu algo gelado percorrer suas pernas e subir...Eram os pés de Dora que o acariciavam por baixo da mesa. O toque macio excitou Hiram. Dora notou a excitação do amigo e passou a provocá-lo ainda mais. Pressionando seu sexo.
- Vamos dar uma volta? Pediu Hiram, não se agüentando.
Dora sorriu satisfeita.
- Vamos.
Horas de sexo depois, ao se despedirem e trocarem telefone, Hiram estava certo de que aquela era mais uma conquista. Mais uma amiga diferente pra compor o seu harém particular. Tinha agora de pensar num modo de ela não pegar em seu pé. Ah, diria que era casado. Isso. Mas ao abrir a boca foi atacado mais uma vez por Dora, que no fim o deixou exausto. Dora sabia o que fazia, pensou. Acabou nem falando que era casado. Ainda outros encontros foram realizados. Hiram estava enlouquecido por Dora, seu sexo maravilhoso, sua inteligência, suas gargalhadas, sua beleza.
Agora ele a chamava de deusa.
De repente, Dora sumiu. Hiram não teve mais notícias.
Numa noite, suando, resolveu ligar e se declarar à moça.
O telefone toca. Dora lia um livro e pensava que estúpido a tirava de sua leitura àquela hora. Que vida vazia e solitária. Imaginava como seria bom se encontrasse alguém que lhe amasse e lhe merecesse... Atende ao telefone e reconhece a voz.
-Alou, oi Dora. Hiram. Queria falar contigo, te dizer umas coisas, não agüento mais, posso passar aí princesa?
-Quem fala mesmo?
-Hiram, gata...
-Ah, Hiram...Olhe, não é Dora que fala, é a irmã dela. Dora mudou-se ontem. Foi embora do país com um namorado. Desculpe. Nossas vozes são parecidas, então as pessoas confundem. Até meu marido confunde. Pois então, Dora foi embora. Passar bem.
-...
Hiram engoliu a resposta e foi para o bar. Depois daquela noite desapareceu, ouvimos boatos que havia ingressado nas forças do ETA.
Kelly Kalynka
De volta e mau humorada!
Kalynka Cruz |
comentários(0) 20/07/2006 09:23
TEMPESTADES
Arrumou as malas. Mas antes ainda deitou no meu colo. Ainda jantou comigo, ainda me fez afagos. Depois pegou suas leves tralhas e sumiu. Eu soube na hora que nunca mais seria o mesmo após sua partida.Ninguém pode ser a mesma pessoa quando se é abandonado. E eu, que sempre me acostumei a ter tudo, não a tinha mais. Não tinha seus sorrisos fáceis. Seus abraços gostosos. Seus cabelos cheirosos. Cristina. A minha tristeza tinha um nome e este nome era Cristina. Eu nunca fui bruto, sequer lhe fiz algum desagrado. Apenas amei Cristina, como aprendera a amar, com respeito e tranqüilidade. Nunca fui atencioso é verdade. Nunca lhe dei presentes. Nunca lhe ofereci colo. Mas eu sei que ela se sabia amada, porque sempre fui por ela abraçado. Sempre recebi atenção. Sempre me senti desejado.
Cristina era uma mulher pequena. Branca, cabelos castanhos da cor de mel. Seios pequenos, quadril estreito. Ah, mas seu coração era enorme. Sorridente, mas de gestos contidos. Previdente, mas esquecida. Boa cozinheira, mas ruim de cama. Defeito este que eu superava porque seus beijos, ah seus beijos, eram beijos gostosos.
Sempre imaginei Cristina como uma mulher morna. E era. Não me dera filhos, não tinha ciúmes. A palavra tempestades não existia no seu dicionário. E foi por este motivo que Cristina partiu. Tempestades.
Vou contar-lhes, mas não gostaria de voltar a repetir nenhum detalhe, por isso peço a atenção de todos. Peço que me ouçam, pois só contarei uma vez.
Eu bebo. É pouco, mas bebo. Sou um homem reservado, minha diversão é tomar minha bebida sozinho, no balcão do meu bar. Na verdade toda a minha vida se passou naquele balcão. É para lá que me dirijo quando preciso pensar sobre algo realmente importante. Então, como dizia, Cristina odeia tempestades. Não, não era isso. Era beber. Eu bebo, é verdade e noite destas exagerei. O jogo entre o Vasco e Flamengo estava animado, de modos que fui bebendo e assistindo o jogo, o Vasco ganhando e eu consumindo. Ao final da peleja esportiva, eu já estava razoavelmente bêbado. Digo razoavelmente porque eu sabia o que estava fazendo. Lembrei-me de Dora. A bebida me traz lembranças. Dora meu furacão. Onde andaria Dora e suas coxas grossas? Dora e seus seios fartos? Dora e sua boca maravilhosa? Eu nunca tive a sorte de namorar com Dora, até tentei, mas ela sempre estava interessada nos caras maus da turma. Adorava motos, homens com a barba mal feita, que transpiravam testosterona numa proporção de 70% . Então nunca me dava bola. Eu sou um cara normal, de estatura mediana, sou até presença, mas tenho esse defeito de ser tranqüilo. Isto afasta mulheres como Dora. Enfim. Mesmo diante de toda essa diferença, um dia, na faculdade, Dora me olhou. Na verdade nos encontramos num corredor apertado. Ela procurando um de seus bandidos, eu atrás de uma cópia na reprografia. Cumprimentou-me, já eram 18 horas e sorriu corrigindo o boa tarde, pelo boa-noite. Retribui o sorriso e a puxei pela mão para um cumprimento, com uma audácia desconhecida. Ela se desequilibrando encostou-se em mim. Seus seios roçaram nos meus braços pelo tecido fino do vestido azul. Dora, não usava sutiã. Ela, encostada por conta do corredor apertado e cheio de gente, sentiu minha reação.
Afastou-se e sorrindo me convidou para atravessarmos o campus universitário para tomar um lanche. Eu não sei como, nem porque, mas soube na hora que Dora seria minha naquela noite. Caminhamos e passamos por um corredor vazio. De repente Dora me puxa para dentro de um banheiro masculino. Trancamos a porta e eu pude sentir o seio de Dora em minhas mãos. A coxa de Dora em minhas coxas, o sexo de Dora em minha boca, a boca de Dora no meu sexo. Um sexo explosivo aquele de Dora. Incansável. Na parede de pernas afastadas, ela me chamava. Sentados no vaso, ela por cima de mim, gozava. Uma louca aquela mulher. Gozou diversas vezes e me ensinou coisas que nenhuma outra vagabunda teria me ensinado. Agora eu entendia porque Dora preferia os homens maus, por ter medo de não encontrar nos outros tudo aquilo de homem que precisava para si. Imagino isso. E assim foi por um longo período. Comia Dora pelas tardes e namorava à noite a virgem Cristina. Um dia Dora partiu. Não que ela quisesse, mas engravidara de um outro cara e resolvera arrumar a vida.
Pois bem, eu lembrei de Dora no meu pileque e senti uma saudade tátil. Carnal. Voltei pra casa. Cristina arrumava nossa cama. Cheguei por trás, acariciei seus seios, beijei seu pescoço, cheirei seus cabelos, apertei seu sexo e a joguei na cama. Cristina me olhava espantada. Sorriu e perguntou se eu queria um café. Respondi que não. Arranquei sua camisola brega pra melhor poder observar aquelas curvas delicadas. Os seios pequenos, espalhados e rosados. A ausência de barriga, o quadril muito estreito, os cabelos de mel a cair pelos seus ombros cascateando. Amei Cristina como um animal. Servi-me de Cristina de todas as formas que conhecera o sexo com Dora. Todas. Não deixei de fora nada que havia feito no passado. Foi o melhor sexo da minha vida. Cristina gostou. Eu imagino. Ela gozou, chorou, pediu mais, colocou seus seios em minha boca, esfregou-se em mim com desespero. No fim, adormeci. Acordei com o barulho de Cristina na banheira. Horas. Observei ela vir de banho tomado. Havia sido um banho demorado. Deite aqui. Ela respondeu que não, dormiu na sala.
Hoje, foi embora. Não me deu uma explicação. Nada. Arrumou as malas, deitou no meu colo, jantou comigo, afagou meus cabelos, depois pegou suas poucas malas e sumiu. Não impedi, não tive vontade. Senti uma tristeza, mas não tive vontade. Onde andaria Dora? Será que ainda estava casada?
Kalynka Cruz |
comentários(0) 13/07/2006 13:31
Os Olhos de Kalynka Poema de minha amiga Miss butterfly para mim.
Obrigada princesa!!!
Seus olhos são um fundo negro
De um palco lindo e gigantesco
Onde se encena importante peça:
Você, Kalynka, a protagonista
Por hora esquece que é a artista
E a principal participação.
Apavorada, pede socorro
Se diz perdida, quer atenção:
-Amem-me agora, senão eu morro!-
Quer co’alegria ser recebida
E ser amada e ser protegida
Porque cansou já de dar caução,
De ser coluna, sustentação.
Diz que morreu por ser tão forte
De inteligência e ter tanta sorte,
E a mulher forte sempre se apruma!
E deu-se toda, sem ser pedida,
Amou de graça, deu graça à vida.
Nunca cobrou por coisa nenhuma...
Seus olhos são um fundo negro
E dentro deles reflete o foco
Que vem da luz do anfiteatro
Luz radiante e seus olhos cegos
Perguntam eles: - Qual é o ato?
Arde-lhe a alma e não mais enxerga
E se entristece e recolhe o ego
Sem poder ver quantos lhe assistem
Tão recolhida na alma atéia.
Iluminada por luz tão forte
Perde o prazer de ver a platéia:
Quantos lhe olham tão docemente;
Quantos lhe amam; quantos lhe aplaudem
E todo dia pedem seu bis,
Da sua presença tão caliente
Da sua imagem resplandecente
Que a tantos seres faz ser feliz
Seus olhos são um fundo negro,
Mas não tão negros que seja breu
Pois neles mora um ser que é ímpar:
Foi nos seus olhos, linda Kalynka,
Que fez morada um grande Deus!
Miss Butterfly - Em 11 de Julho de 2006
Kalynka Cruz |
comentários(0) 10/07/2006 12:07
A VERSÃO DA DIRETORA (Ou aversão à diretora...).
Deu duas voltas no cadarço antes de dar o laço. Passou duas vezes a mão pelos cabelos ralos e levemente grisalhos, sentado na cama sorriu, duas vezes. Um riso nervoso, de despedida.
Ela o observava encantada. Assim estivera desde o primeiro dia em que se encontraram. Encantada. Vou escrever sobre isso, falou. Antes quero ler, precaveu-se o rapaz. Ela riu. Enquanto ele era todo cuidados, ela queria correr pra janela do quarto de hotel e gritar: hei, hei, esse é o homem que eu amo. É esse aqui meu filho! Não, não tinha outro não, é esse mesmo, foi por esse que eu me apaixonei. Porque? Ora o porquê! Porque ele é o melhor homem com o qual já me deparei na vida inteira! Ele é suave, intenso e belo! Riu-se sozinha do devaneio. Agora estava dada a devaneios, este homem realmente a tirava do chão. E pensar que alguns meses antes estava de cara enfiada nos livros certa de que neles se protegeria dos homens, principalmente os grosseiros e violentos. Tremia de medo, só de ouvir a palavra relacionamento. Mas o rapaz, o seu amor, o presente que a vida havia lhe dado estava ali na sua frente, despedindo-se e ela não queria deixá-lo sair, por nenhum segundo.
-Já vai mesmo?
-Já, não nos vemos mais depois de hoje, você sabe.
-Ai não, não diz isso, não quero ouvir isso – reclamou, pulando no pescoço do rapaz e o abraçando. Ele, constrangido, não sabia com desvencilhar-se daquela moça tão insistente.
-Eu tenho que ir.
-Não, por favor, fica só um pouquinho, só mais um pouquinho!
-Não dá!
-Ai, vou morrer...- Gemeu suplicante.
-Mas você disse que seria bom pra você! Por isso eu aceitei esse encontro, porque você disse que seria bom pra você, que não ia sofrer...
-Mas eu te amo.
-Eu sei, mas você sabe da minha situação, você sabia desde o início!
-Você me ama?
-Eu te adoro!
-Mentira, você me ama!
-Não, eu te adoro, é diferente.
-Não você me ama, eu sei, você já disse uma vez!
Ele riu. Era doida mesmo.
Ele abriu a porta, sorriu mais uma vez. Ela tentou adivinhar o que aqueles olhos diziam. Que olhos tristes e belos ele tinha. Aqueles olhos pediam para serem amados, cuidados, envenenados de prazer. Eram olhos suplicantes. Suplicavam por uma intensidade que ela mesma temia. Como podia ser assim? Os olhos dizerem tanto e a boca nada dizer. Enquanto os olhos do rapaz a devoravam e juravam devoção, a boca dizia não, não será bom para ninguém!
Queria beijar-lhe ainda uma vez as mãos, em sinal de adoração, de amor. Queria beijar-lhe o rosto e acariciar-lhe a pele com a ponta dos cabelos. Guardara com ela um sorriso roubado. Fotograficamente. Ele deitado, sua pele branca, olhos fechados e um lindo sorriso a aflorar no rosto quando ela lhe fazia cosquinhas no rosto com a ponta dos cabelos. Era aquele homem que ela amaria a vida inteira. Era aquele homem que ela lembraria nos anos seguintes caso não viessem mais a se ver. Não o que partia. O que partia, estava levando com ele sua alegria e deixava uma grande dose de saudade.
Beijo-o na porta, ele se foi. A porta fechada. Duvidou entre jogar-se na cama a chorar e correr atrás dele a roubar um último beijo. Abriu a porta, que sorte, o elevador ainda não chegara. Na sua alma, tantas palavras a serem derramadas, beijou-o e lhe atirou um eu te amo. Apague a poesia no espelho, tem meu nome, foi a resposta dele, antes que a porta do elevador se fechasse.
-Mãe, mãe.
-Oi, que foi?
-Você está tão distraída nesta janela. O que foi, algum problema? Lá vem drama...O que foi mãe, sua nova pesquisa que é que tem?
-Não estava pensando na minha pesquisa.
-Ai não. Não vem de novo com aquela história velha do seu namorado, que era o homem da sua vida, que você perdeu. Sai dessa! Faz tantos anos!
-E se eu ligasse pra ele, só pra saber dele?
-Mãe ele deve estar gagá!
-Deixa disso menina, a diferença entre nós é só de sete anos...Eu tenho 42, ele tem 49, por aí...Hoje é aniversário dele.
-Como você sabe, eu hein! Que horror, não esquece nem o aniversário do homem...
-Claro que não, hoje não é aniversário da tua irmã? Pois então, fazem juntos...
-Ah, tá, então ele deve ser uma mala, porque ela...
- Rs. Deixa disso filha, sabe de uma coisa, eu vou ligar. Vou procurar o nome na lista.
-Pronto, a doida ficou doida mesmo. Liga doida! Quero ver se for a mulher dele que atender, eu vou rir da tua cara.
-Se for ela eu desligo...
Alguns momentos depois, nervosa, ela se sentiu com 10 anos a menos. Uma adolescente. Discou o prefixo da cidade, os números, metodicamente, pra não errar. Estava chamando.
-Alou, oi bom dia, por favor, com quem eu falo? Você trabalha aí? Olhe o senhor Francisco está? Está? Folga? Que maravi...Quer dizer, que bom, pode chamá-lo, por favor? Diga que é Júlia. De onde? É só Júlia, por favor.
-Oi, quem fala?
-Júlia.
-Sim...
-Oi, desculpe ligar assim, tanto tempo...Queria lhe dar parabéns.
-Ah obrigada. Mas Júlia de onde?
-Júlia...
-Desculpe, Júlia, mas não lembro de nenhuma Júlia assim, desculpe...
-É a Júlia...Sua amiga...Lembra...Amor?
-Ahn? Amor?
-Não pode falar, é isso, entendi. Maria está do seu lado?
-Maria? Ah, Maria, minha ex-mulher...Não.
-Ex? Você está solteiro?
-Não, casei de novo! Faz uns anos...Mas escute, desculpe, é Júlia de onde mesmo?
-Nada não, foi engano...
Kalynka Cruz |
comentários(0) 05/07/2006 09:03
Uma carta de amor...
Preciso escrever um poema Mas nenhum poema chegaria sequer a refletir uma fagulha do que sinto agora. Nenhum poema seria capaz de reproduzir a música que toca em minha alma quando sonho estar ao seu lado.
Eu caminhei na praia sentindo a intensidade do meu amor. Você não estava fisicamente ao meu lado, mas você estava na minha alma e eu jurei que a partir daquele dia você sempre estaria. Aí você apareceu todo nervoso, assustado, comigo, com você, com o que nos acontecia. Mas o sentimento que nos envolveu foi maior que todos os nossos medos. Foi maior que qualquer outro sentimento que pudéssemos sentir.
São tão tolas as pessoas que pensam ter controle de suas vidas e julgar aos outros tão superficialmente e sumariamente, por gestos que elas mesmas não podem compreender. São tolas de fato. Não poderão nunca imaginar como pode ser suave o toque de um homem apaixonado ou o beijo de uma mulher que ama.
As pessoas envelheceram e esqueceram do amor, mas o amor existe e nos aparece nos lugares mais impossíveis. Apresenta-se em olhares encantadores, em sorrisos surpreendentes e doçuras encobertas. O amor está na possibilidade de sorrir uma outra vez ao encontrarmos pessoas especiais, especiais como você meu amor.
Eu tenho acordado todas as manhãs com um sorriso perdido no rosto e este sorriso tem um nome, é o seu. O seu lindo nome que não posso revelar, mas que explode neste grito silencioso em meu peito. Mil vezes seu nome, seu impossível nome.
Amar em silêncio é também uma dádiva, não é uma tristeza. Porque ao te encontrar posso falar o que sou proibida de dizer, posso repetir no seu ouvido o nome que não posso bradar. Posso dizer-te amado, que o amo, que combinamos de tal forma que parece termos sidos feitos um ao outro. Meu impossível amor, meu amor impossível, não há nada mais doce que receber teus beijos e tocar teus cabelos finos, sedosos. A tua pele tão branca e delicada a me encantar o toque. A tua boca desejada e os teus olhos, ah teus olhos algozes, seqüestradores de minha alma.
Perdoe-me este arrebatamento, mas eu encontrei o amor da minha vida e se ele não poderá ser sempre meu, ele o será por segundos, por dias, por anos até. Que seja, que sejam dias, minutos, mas eu não posso me privar de vivê-lo. Não seria justo com nenhum de nós. Não me importo com a dor anunciada, nem mesmo ela vai conseguir sufocar a intensidade do amor que nos toca e nos faz olhar o mundo com mais profundidade.
Estávamos na superfície, mas o mergulho inevitável nos mostrou como é belo o outro lado da vida. Porque eu me sinto uma menina ao teu lado, quero colo, beijos doces, amor, proteção. Porque eu me sinto uma mulher ao teu lado, quero beijos ardentes, toques quentes, envolvimento. Porque ao seu lado eu não sou uma, nem metade. Na verdade ao teu lado, somente ao teu lado, consigo ser eu mesma, completamente, e só posso te agradecer por isso.
Não fui eu que te achei, foi você meu amor que me tirou a venda dos olhos e me mostrou como a vida é generosa, esplendorosa ao lado de pessoas como você.
Um dia eu sei, você vai me abrir seu lindo coração e ele estará para sempre tomado, como o meu...
Kalynka Cruz |
comentários(0) 30/06/2006 00:04
...
Minha Maria,
Quando eu nasci, desenganada pelos médicos, você me tirou do hospital e disse, vai sobreviver. Você me dava banho sozinha, na palma da sua mão e se divertia, que eu, como um gatinho, cabia numa caixa de sapato e me alimentava com um algodão! Prematura, de seis meses, um pouco mais de 1 quilo... Até meu avô, que me olhou e disse, essa menina não se cria, você enfrentou, apertando seus olhinhos pequeninos e falando: pois ela vai crescer e ainda vai no seu enterro. Eu fui!
Lembro de mim pequenininha, correndo pela sua casa, tomando seu mingau na colher, exigindo, batendo o pé. E você sorridente, fazendo minhas vontades. Lembro de tanto amor, de tanta atenção.
Lembro de você me comprando sapatos, iguais aos seus...Minha preferência por sapatilhas e tênis, surgiu do hábito copiado. Você me calçava, me alimentava, me vestia, me embalava, me mimava.
Lembro de tantas coisas difusas. Mas lembro sempre do seu colo gostoso, lembro de você reclamando que eu tava pesada, mas eu, já adulta, forçava a barra pra sentar no teu colo.
Lembro da primeira vez que fugi de casa e fui te contar, Vó, vou fugir de casa. E você, se despedindo de mim, chorou pela janelinha da porta me dando adeus. Ah, minha Maria como que queria que fosse eu que tivesse partido agora e não você.
Lembro das suas broncas me pedindo para eu parar de beber, parar de fumar, parar de brigar. Mas Vó, eu nasci pra brigar, nada na minha vida vinha fácil, só mesmo você. Só você era doce, só você era amor.
Eu herdei tantas coisas tuas. As crianças me adoram, como adoravam você. Eu adoto pessoas, como você adotava. Eu tenho um amor pelo ser humano, do jeito que você tinha. Piedade, compaixão, amor e amizade...características que herdei de ti.
A sinceridade também, você era transparente. Noutras coisas diferimos. Poucas vezes te vi aborrecida ou triste. Sempre sorrindo, sempre tranqüila. Isso me dava uma tranqüilidade inexplicável. Você era meu porto seguro.
E agora minha Maria, eu não consigo sofrer, porque sublimei meus sentimentos. Quando a imagem de tua morte me vem à mente eu rapidamente bloqueio e abstraio com outras lembranças bem divergentes de ti. Mas hoje Maria, hoje não consegui. Hoje chorei tua partida soluçadamente, porque teu sorriso lindo não sai de minha cabeça, porque não consigo me apegar a nada. Eu me sinto culpada, porque tu eras tão especial, tão maravilhosa que eu deveria ter feito mais. Eu fui covarde Maria! Desde a tua doença eu não suportava a dor de te visitar. Meu Deus, como eu fui covarde. Eu te visitava e seguida a estas visitas eu enfrentava semanas de depressão, de dor antecipada. Chorei a iminência desta tua morte tanto. Por tantos anos desde tua doença. Mas fui fraca. Quando te vi pela última vez viva, sem ter certeza de estares me ouvindo, te falei sobre este amor, sobre esta gratidão, cantei pra ti, te beijei...mas acho que era muito tarde meu amor. Não sei se você me ouviu, tive a impressão que você me ouvia, mas não teria sido tudo minha imaginação?
Maria meu amor, Maria. Me leva contigo pede meu coração. Eu não suporto mais sublimar esta dor. Eu encho minha cabeça de coisas alegres, engraçadas, mas quando chega a madrugada, e nada mais há para se pensar, eu não consigo mais controlar as lembranças e me desespero ao perceber que não posso mais fazer nada por ti, que não posso mais te dizer te amo, que não posso mais te dizer coisas lindas, nem tocar teus cabelos macios, nem dizer como são brilhantes, como amo teus olhos pequenininhos, como amo teu sorriso meigo. A minha vida é tão solitária agora vó. Cuida de mim eu queria te pedir. Vês como sou egoísta a chorar neste teclado, deveria ser eu a cuidar de ti, mas eu fui covarde e só fiz chorar, quando deveria cuidar.
Minha vida perde o rumo. Reavalio minhas escolhas, minhas convicções. Minha fé foi abalada e minhas crenças também. Eu que sempre trafeguei tão bem entre a ciência e a fé, estou agora vazia, porque a ciência não pode me consolar e a fé me abandonou. Morreu contigo? É possível.
Eu me despeço meu amor, porque não posso mais escrever. Novamente essa vontade de sublimar é mais forte, mas esta fuga de sentimentos expressada nesta carta já me serve de auto-retrato, quem sabe Maria, após tua partida, eu não me torne uma pessoa melhor?
Tua filha, tua neta, tua Kelly.
Kalynka Cruz |
comentários(2) 26/06/2006 00:07
...
Cara tristeza,
Não era a hora de teres chegado. Na verdade, não há aquele que goste quando te aproximas.
Sempre chegas acompanhada da dor, da decepção e também do medo.
Mas hoje, no entanto, te peço, que de meu peito tomes posse, de minha alma faças morada.
Não consigo tristeza receber-te, porque sou de uma natureza feliz, então pra mim é difícil até mesmo chorar quando o assunto é tão grave. Choro por bobagens, mas esta é a primeira vez que preciso derramar minhas lágrimas e não consigo, como se meu peito fora blindado contra ti, como se a verdade não fosse em minha mente aceita, embora o coração desesperado me diga que infelizmente é sim.
Por favor venha tristeza. Invada minha alma urgentemente. Faça como que eu não me levante da cama. Faça como que eu não lave mais os cabelos, faça com que eu na vida não veja mais nenhum brilho, porque, tristeza, eu hoje perdi tudo. Perdi a esperança, perdi a felicidade e perdi também o dom de amar. Por isso te peço, avance e ultrapasse esta coração, me leve com você tristeza, porque a hora é de morte, mas infelizmente não tive tal sorte, de ser levada por este anjo negro, que me tirou meu amor.
Tristeza, por favor, venha. Estou vazia, esta é a sensação. Não tive colo, porque meu único colo se foi. Não tive beijos acalentadores, porque a boca que em beijava foi levada. Não tive esperança porque minha única semeadora foi arrebatada.
Por favor, tristeza, venha! Esta é quase uma prece, é um apelo, que faço. Venha tristeza, venha e me deixe prostrada eternamente, para que eu possa morrer em pranto, em desespero, sem acalanto. Porque tristeza me foi tirada Maria e não consigo nisto acreditar!
Tristeza eu te suplico me mate a esperança, me arranque do peito a bonança e a vontade de viver, porque tristeza, repito, sem meu amor a meu lado, o destino desta flor é por tuas mãos fenecer.
Por favor!
Kalynka Cruz |
comentários(0) 24/06/2006 10:54
...
Minha amada e meus amados.
Dor maior nunca senti, minha Maria.
OLHA MARIA
(Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius de Moraes)
Olha, Maria
Eu bem te queria
Fazer uma presa
Da minha poesia
Mas hoje, Maria
Pra minha surpresa
Pra minha tristeza
Precisas partir
Parte, Maria
Que estás tão bonita
Que estás tão aflita
Pra me abandonar
Sinto, Maria
Que estás de visita
Teu corpo se agita
Querendo dançar
Parte, Maria
Que estás toda nua
Que a lua te chama
Que estás tão mulher
Arde, Maria
Na chama da lua
Maria cigana
Maria maré
Parte cantando
Maria fugindo
Contra a ventania
Brincando, dormindo
Num colo de serra
Num campo vazio
Num leito de rio
Nos braços do mar
Vai, alegria
Que a vida, Maria
Não passa de um dia
Não vou te prender
Corre, Maria
Que a vida não espera
É uma primavera
Não podes perder
Anda, Maria
Pois eu só teria
A minha agonia
Pra te oferecer
Kalynka Cruz |
comentários(0) 16/06/2006 21:34
FOTOGRAFIA
E de ter ver assim tão imutável,
Grave, mas encantador...
É que prevejo a sentença:
É para breve a dor de amor!
Todas distâncias eu venceria,
Se nenhuma fosse a distância
Guardada em teu puro peito.
Que mesmo me amando
Do seu escondido jeito,
Consegue negar nosso amor temporão,
Que dizes chegado na hora ingrata,
E por isso recebe teu não!
E se agora com toda urgência
Amo-te e sou devorada,
Devo em breve seguir minha estrada,
Arrastando minha alma inanimada,
que decerto, não nasceu pra ser amada...
Mas tão somente para colocar-se a teus pés encantada
E te mostrar a irretocada instantânea fotografia
De uma vida que tudo seria, mas que enfim não é nada!
Kelly Kalynka
Kalynka Cruz |
comentários(0) 11/06/2006 21:29

Anti-poema:
Amor eu só quero você.
será que não dá pra entender!
Kalynka Cruz |
comentários(1) 11/06/2006 12:26
FRANCISCO
E de esperar-te a vida inteira,
É que me fiz forte e conselheira.
É que aprendi sem teu abraço
Como afrouxar o inútil laço.
Como esperar o certo compasso,
Para poder suportar da solidão o cansaço.
E por esperar-te a vida inteira.
É que me fiz tão ligeira
Nas artes e nas prendas do amor,
Aprendendo sempre a esconder a dor,
Sorrindo mesmo no dissabor!
E por esperar-te a vida inteira, ser amado,
É que aprendi caminhar lado a lado
Com o inimigo de amigo disfarçado.
É que aprendi a ser só e não ter medo
De esperar um tempo não determinado!
Para que enfim em teus braços,
Pudesse então sem segredo
Entregar-me plenamente.
Carne e corpo, alma e mente.
Para que enfim sem vergonha e com ardor
Pudesse a ti e em ti tão somente,
Ajoelhar-me e confessar livremente:
Que vivo, morro e respiro amor!
Julinha da Adelaide
Kalynka Cruz |
comentários(0) 10/06/2006 11:47
NINA E CHICO
Desceu as escadas para deixar o lixo na portaria do prédio. Insuportável aquele fedor de cola deixada pelos marceneiros no lixo. Parecia que tinham derramado cola de sapateiro em todo o apartamento. O cheiro decerto infestaria o corredor, por isso decidiu ele mesmo descer com o lixo. Encontrou no espaço entre o terceiro e o quarto andar uma moça sentada na escada, cantarolando uma música antiga, Nicanor.
-Licença.
-Agora?
-É agora.
-Que chato!
-Mas menina, você não vê que estou com um saco na mão e você apenas sentada e eu que sou chato? Aqui não é lugar de meninas ficarem sentadas.
-Eu não sou uma menina. Tenho mais de 30 anos.
-Tudo isso?
-É porque?
-Parecia menos...
-Ah, obrigada...
-Impressionante – disse ele, colocando o saco do lado e sentando-se na escada.
-É todo mundo diz isso, que pareço ter uns 25 anos.
-Até menos...mas não é isso, impressionante é que você cantarolava Nicanor...mas me diga, agora fiquei curioso. O que faz sentada na escada, cantarolando uma música do Chico que não costumo ouvir na boca de muitas meninas por aí?
-Fumava.
-Mas porquê na escada?
-Pras crianças não me verem fumando. É que eu parei, mas às vezes estou muito tensa e venho fumar este cigarro de cravinho...só às vezes.
-Que crianças, seus irmãos?
-Hahahahaha! Não meus filhos- Respondeu ela gargalhando.
-Filhos? –Perguntou ele incrédulo.
-É...
-Você é interessante...escute gosta de Billy Holliday?
-Gosto mais da Nina Simone...
-Nada a ver, mas eu tenho Nina Simone...você não quer escutar, lá em casa, hoje à noite, ou amanhã, ou agora?
-Cantada barata.
-É não tenho outra melhor no momento...
-Escuta se você conhece Nicanor, gosta de Chico não?
-Sim eu adoro Chico Buarque, tenho até vinis dele...
-Sério? Canta aí uma pra mim...
-Morena dos olhos d’água, tira esses olhos do mar...
-Que horas?
-O quê?
-Nina Simone e Chico Buarque.
-Ah...
Kalynka Cruz |
comentários(0) 07/06/2006 08:59
...
ABRAÇO
Vem cá moleque lindo,
me dá um abraço.
Contigo não há cansaço
Contigo é frouxo o laço
E o riso tem mais compasso!
Não quero hora marcada
Não quero parar por nada
Tão pouco sair em disparada.
Nesta vida não há nada
Que me faça tão feliz!
Espero nesse amanhecer
Encontrar forças pro dia
Tão longe assim de você!
Que os minutos sejam mais longos
E os meses passem devagar
E assim possa eu adiar,
A triste hora de te deixar!
Kelly Kalynka
*Dói antes!
Kalynka Cruz |
comentários(1) 04/06/2006 13:12
O PAULISTINHA
Sonhos românticos flutuam na tarde amena.
Espalhados pelo vento, bailam pelas varandas, entram por janelas, a flutuar como folhas.
Um deles pendeu suavemente no umbral de uma das antigas casas de um bairro nobre. Rodopiando pelo ar, acabou por assentar-se entre os longos cabelos negros de uma menina que estava sentada à soleira. Cabeça baixa a pender para um lado, cabelos negros a esconder o rosto, corpo flexionado. Braços graciosos a abraçar as pernas por cima do vestido.
A chegada dos sonhos foi se misturando lentamente a outros pensamentos de igual teor romântico que eletrizavam sua fértil mente. Lembrava-se a menina da primeira vez que olhara no rosto do novo vizinho. Um belo rapaz, de feições delicadas, cabelos negros e sorriso contido. Havia ido com os pais cumprimentar a nova família que chegara de outro Estado. Os pais do garoto mudaram-se para a cidade a trabalho, trazendo com eles o único filho, de dezesseis anos. Desde então os olhos da pequena não desgrudavam mais do tímido garoto.
Enquanto ela suave de gestos era toda educação. Os olhos pareciam não se controlar, nem pertencer à dona de tão graciosos gestos. Arregalavam-se de emoção, fechavam-se de paixão e vejam só, até choravam levemente quando não avistavam o tal menino franzino. O paulistinha, como se referiam ao menino, os pais de jovem.
É tímido este paulistinha, nem nos olha nos olhos, comentara uma vez seu pai ao cruzarem com o menino na rua.
Ela por sua vez descobrira uma nova maneira de passar o tempo que não fosse deitar na cama e abraçar o travesseiro quase sexualmente. Agora, todas as tardes corria para a janela lateral a espreitar o vulto do menino branco de cabelos negros. Também andara a escrever. Foi descoberta pelo pai escrevendo um poema, escondida embaixo da goiabeira e mesmo morena, corou notavelmente. Olhe Maria, vem cá ver Marina a escrever poemas. Decerto está apaixonada. Deixes disso rapaz, que a menina adora ler, era natural que viesse a escrever. Está bem, está bem, retrucara o pai, desculpe se te constranjo pequena. Mas já era tarde, pois além de envergonhada, ela já se vira observada pelo garoto na janela vizinha. E pôde ter certeza que ele imaginara ser para ele mesmo o tal poema flagrado pelo pai. Apertou o papel cor de rosa ao colo, escondeu-se nos cabelos. E ficou a pensar. Minutos depois colocou o poema na janela do vizinho e voltou correndo para debaixo da goiabeira do jardim. Notou a mão branca a puxar o papel. Sentiu seu coração muito jovem palpitar loucamente, como se fosse um coelho a querer saltar-lhe garganta afora.
Disparou em direção a sala, jogando-se no confortável sofá cheio de almofadas. Não sabia se sentia vergonha, se sentia ansiedade, não distinguia de forma alguma aquela estranha emoção. E neste estado de espírito foi sentar na varanda onde a encontramos há pouco. Cabeça baixa a pender para um lado, cabelos negros a esconder o rosto, corpo flexionado. Seus graciosos braços a abraçar as pernas por cima do vestido, enquanto aqueles sonhos lhe perfumavam a tarde...
Kalynka Cruz |
comentários(0) 04/06/2006 13:11
A MAIS AMADA
No mais...
Nenhum amor acaba assim.
Com vírgulas ou parêntesis
Que só contribuem, no fim.
MARIA
Recolho as roupas do varal
No velho e encharcado quintal.
Trabalho feito um animal
Mas isto nunca fez mal.
Porque à noite me deito
No mais doce e seguro peito!
A OUTRA
Mordo a mão
E escondo no cabelo
A cara amarrotada e desfeita.
É simples a sina que tenho
Amar e por ele ser aceita.
Embora sempre esteja sozinha
Na hora em que se deita!
MARIA
Acordo assim disposta e feliz.
Sou a dona da bola,
A mulher que ele quis.
Sou a mais encantada.
Sou a que ele cheira os cabelos
E me entrego extasiada
Aos seus sorrisos e apelos!
A OUTRA
Sexta-feira, penso eu,
Não é dia de levantar.
Eu hoje não o tenho
Não quero nem trabalhar.
Perfume? Pra quê usar?
Colares? Deixe-os pra lá.
Sorrisos? Não os posso dar!
MARIA
Meu amor já vai chegar,
Embora um pouco ocupado
Ele sempre me olha assim.
Me manda um beijo encantado
E sorrindo pisca pra mim.
Noto certa diferença
No seu jeito de amar,
Mas não reclamo de nada,
Ele sabe onde é seu lugar.
A OUTRA
Desejo impaciente
Que o dia passe veloz.
Hoje à noite finalmente
Recebo meu doce algoz.
Corro a arrumar os cabelos
Que hoje não são mais meus.
São cabelos onde meu rei
Esconderá segredos seus.
Escolho o melhor perfume
E Já suspiro acalorada
Pois sei que nestas noites
sou a mulher mais amada!
Kalynka Cruz |
comentários(0) 30/05/2006 20:28
DESASSOSSEGO
No mais...
Todas os romances são iguais,
Todos os amores trazem erros,
Todos os amantes se fazem perros.
Abrupta, a porta se escancara.
E foge a poesia.
Há dias que são meus e dias de Maria.
Sou a louca, a errante.
Maria a fria e constante.
Sou a bêbada, meretriz.
Maria, a que minhas iguais desdiz.
A um homem só eu quis.
Maria, o mesmo faz feliz.
Ela dele, companhia,
Eu de cá, só fantasia.
Morro em êxtase por amá-lo,
Ela sempre a segurá-lo.
E assim, seguem-se os dias
Dias meus e de Maria!
Kelly Kalynka
Kalynka Cruz |
comentários(0) 27/05/2006 14:43
LASSO
Vem cá, me dá um abraço.
Não chores. Não, não baixes a cabeça. É tão belo teu olhar.
Se resolvi partir, não é somente porque quero te deixar.
Também não é verdade que volto.
Eu no entanto confesso, que sou afeito a partidas.
Não, não é medo. E eu nunca te fiz segredos e nem te tomei por tola!
Mas a verdade, te digo, é que sempre fui teu amigo.
Amante nas horas vagas, pra me livrar da tensão.
Mas nada, te lembres, nada, tinha a ver com emoção.
Julinha da Adelaide
Kalynka Cruz |
comentários(0) 20/05/2006 16:15
...
A CORRENTEZA DO RIO
Quando conheceu o mar
Não era mais igarapé
Já era um rio errante, tortuoso e frio.
Era um rio, não navegável,
Desses que é preciso passar com cuidado
Pra não ficar à deriva.
Um rio esquecido e revolto.
Um rio de ondas fortes,
Que expulsam errantes,
E assustam navegantes.
Um rio de águas turvas
Acumuladas de tantas chuvas.
Um rio estagnado.
Que não mudaria nunca
Se não tivesse ouvido,
O murmúrio do mar.
Um mar tranqüilo e imenso,
Mas que profundo e intenso,
Arrebatou para si a correnteza do rio.
Sentindo-se o rio tocado, pelo chamado do mar
Passou a seguir seu percurso inevitável
Querendo logo chegar.
Dos eventos da natureza
Não houve maior beleza
Do que o encontro das águas do rio
que correram para o mar.
Dizem sabiamente pescadores
Que da natureza o chamado
Da tal forma relatado
Não pode de outro nome ser tratado
Que não somente de amor.
Julinha da Adelaide
(Voltei!!! )
Kalynka Cruz |
comentários(1) 20/05/2006 12:37
PREJUÍZO Ao amante de cavalos
Eu roubei sua vida,
Roubei sua juventude,
Roubei sua liberdade,
Roubei sua sanidade,
É verdade.
Mas se me acusas de falsa,
Injusta e inconseqüente,
Posso dizer-te, somente,
Se o fiz, foi por amor.
Se hoje tenho que olhar pra trás,
É para poder olhar pra frente.
No mais, não me enfrentes,
Não sou a única delinqüente.
Também me sinto roubada.
Roubastes meus sonhos.
Roubastes meu sorrisos.
Roubastes-me até uns dentes!
E quem consegue fazer poesia
Até da loucura em demasia
Merece decerto viver um dia
Sem ter que abrir mão da alegria!
Consentes?
Kelly Kalynka
Kalynka Cruz |
comentários(0) 18/05/2006 01:50
...
A CARTA
Partiu. Malas vazias. Escondida no bolso, metodicamente dobrada, uma carta, cuidadosamente guardada, como se nela coubesse toda a dor de sua vida. A carta lhe fora entregue, na verdade, deixada ao seu lado, como por acaso, pelo próprio signatário. O amor de sua vida.
O cabelo negro desgrenhado, colado no rosto suado pela longa caminhada. Olhos vermelhos e cansados. Sua alma parecia ajoelhada diante daquele mundo grande de Deus. Resolveu descansar. Afinal, a longa viagem a afastara há algum tempo de seu maior temor.
Sentou-se sobre um banco de madeira. Deitou seu corpo por sobre as pernas. Escondeu sua cabeça entre os joelhos e voltou a chorar. Copiosamente. Sua confusão era tamanha que já nem lembrava quando havia partido. Uma moça ao seu lado, assustada com os soluços da jovem. Acabou por intervir:
-Porque você chora?
Silêncio.
-Você quer água? Posso ir ali comprar. Ofereceu.
Ela sacode a cabeça negativamente.
-Nossa você chora com tanta dor, queria ajudar. Me conte, quem sabe de alguma forma lhe ajudo?
A jovem, que parecia ainda menor do que era, naquela posição contrita, estendeu um papel e entregou a outra jovem que se chamava Paula e que parecia bastante interessada na situação. Paula começou a ler em voz baixa, quase sussurrando:
Minha Luiza,
Estou perdido, minha alma se entrega.
Prostrada diante da sua, como se nela houvesse o peso de milhões de anos.
E, no entanto, é só amor que me faz aos teus pés ajoelhar-me.
O mesmo amor que me faz beijar teus cabelos quando dormes.
O mesmo amor que me faz voltar pra casa ansioso.
O mesmo amor que antevejo nos beijos ainda não roubados.
O mesmo amor que me trouxe a ti há doze anos, quando roubastes minha alma, durante uma dança.
O mesmo amor que delicadamente depositastes por entre meus dedos, como numa brincadeira de criança, onde lhe entregam segredos invisíveis para que sejam guardados na memória.
Eu seria um tolo, Luiza, se te deixasse algum dia partir.
Seria um tolo, se abrisse mão de teus segredos e perfumes.
Seria um tolo, se te impingisse ciúmes,
Seria um tolo, se te trocasse por outra.
Porque minha vida, minha alma, não podem ser de ninguém, apenas tuas.
E porque és a mais bela, entre todas as mulheres do mundo.
Teu Antônio
Paula volta a dobrar a carta, que pensara escrita com o cuidado de um virginiano. Pelo menos era assim que lhe parecia. Só os virginianos seriam tão detalhistas para dobrar uma carta com tanto esmero e escolher palavras tão certeiras. Ou seria a moça a chorar quem dobrara a carta?
-Moça, desculpe, mas você chora por essa linda carta. Eu nunca sequer sonhei receber algo tão sincero.
Um gemido. Mais soluços.
-Nossa, não chore, o que foi, ele morreu? É isso. Por isso esse sofrimento tão doloroso?
A jovem que chorava ao seu lado, virou-se para a questionadora estranha e respondeu:
-Pior.
- Pior o quê? O que pode ser pior do que morrer? O que foi me conte que já estou aflita e curiosa, até desculpe pela curiosidade. Mas olhe, se não é caso de morte, até que não é tão grave.
-É caso de morte sim porque minha alma está mortificada.
-A carta não é verdadeira, é isso? Tudo falsidade? Luiza. Posso te chamar de Luiza, como na carta?
-Sim, a carta é verdadeira. Não, não me chame de Luiza. Sou Marina. Esta carta não é para mim. É para a mulher de Antônio.
-Ah...
Kelly Kalynka
Kalynka Cruz |
comentários(0) 17/05/2006 21:49
...
FLOREIOS D’ANNA
Como ousas fugir de mim borboleta?
Toda faceira, sai nessa fuga ligeira
E deixa de ser lagarta, pra se tornar borboletinha.
Não mais só minha, mas do mundo,
Se metendo por aí nesse buraco sem fundo!
Volta que esse mundo não é teu,
não foi nem Deus que te deu !
Volta que já é tarde e meu peito, aqui arde.
Ai!
Não te permito partir,
ainda é cedo neste universo
Mas na verdade confesso:
Que não aprendi a aceitar
As voltas que o mundo dá.
Fica um pouco, toma um café
Que ainda não é hora de dar no pé !
Tem pena deu que não aceito
Perder-te de nenhum jeito...
Borboleta?
Kelly Kalynka
Kalynka Cruz |
comentários(0) 13/05/2006 15:32
...
TEMPO DE GUERRA (ou A PEDRA)
E quem te disse estrangeiro,
Que este fogo que trago,
É para queimar-te a frágil pele?
Ou que esta frieza que espalho
É voltada só a ti?
Tu não te apercebes, não está claro?
Que tudo que já vivi
É somente adubo da erva que
Danosamente sufoca
A flor que vivia aqui.
Somente posso recomendar-te
Que não te enganes assim,
Pois agora é só campo de guerra
Onde antes havia um jardim.
Kelly Kalynka
Kalynka is back!
Kalynka Cruz |
comentários(1) 13/05/2006 00:37
GREVE
Venho através deste informar aos senhores leitores que este blog encontra-se parado. Acontece que minha heterônima, Júlia, está de greve.
Recusa-se a escrever até que seu amado, um tal de Francisco, o qual não tive o desprazer de conhecer, se apresente por estas bandas e deixe seus rastros.
Já argumentei, ameacei trazer outro heterônimo para cá, mas Júlia, ou Julinha, como a chamamos carinhosamente, recusa-se a escrever. "De que me adianta escrever se Francisco não lê", explicou-me Júlia, mas confesso, não entendi. Como pode alguém privar-se do prazer de escrever apenas porque outrem não lê! Ora bolas.
Pois bem. Estão avisados. eu, por minha vez, que estava de férias, me vejo obrigada a voltar.
Aguardem.
Saudações.
Kelly Kalynka
A feitora do blog!
Kalynka Cruz |
comentários(2) 11/05/2006 23:55
...
NA CAMA E NO CHÃO
Vai.
Pega tua blusa, calça teu chinelo e some.
Não, não precisa dar-me desculpas que eu me sei como a outra.
Que se posta em tua cama, como um fantasma a rondar-te.
Se enfim, é ela que te ama, sou eu a que vai esperar-te!
Vai.
Pega teu pudor, veste tua moral e parte.
Não, não precisa recompensar-me com nenhuma arte.
Que nessa vida, nada é para sempre e tudo se transforma.
Se esse desejo hoje me mata, amanhã toma outra forma.
Vai.
Pega teus temores e esconde do pecado tua alma,
Não, não precisa mesmo negar-me mais uma vez com tanta frieza e calma.
Que há tempo para este desejo que me percorre o corpo e prostra-me então.
Se hoje me daria a ti na cama ou no chão, haverá um dia em que finalmente direi não!
**********************************************
Sim, ainda é pra você Francisco!
(escrito por Julinha da Adelaide)
Kalynka Cruz | comentários(3)
08/05/2006 15:59
Entre Júlia e Francisco
Este monólogo se deu quando Júlia esperava Francisco, sentada na cozinha, às 3 da manhã. Note-se, Júlia é uma insone e Francisco, apenas um sonho...
Esperava-te, entra, toma um café. Cuidado, está quente!
Como eu sabia que tu vinhas? Ora tu sempre vens, pensas que não sinto teu cheiro?
Porque te esperava?
Rsrssrsrsr. Não perguntes o que já sabes.
Queria esse teu beijo que tu sempre me negas. Ah, queria também fazer-te uma pergunta:
-Porque entras em minha casa, cheiras a minha poesia, bebes das minha palavras, lês as minhas cartas, mas não deixas nenhum recado?
Sinto falta do beijo, sinto falta do abraço, sinto falta de qualquer pedaço teu. Mas o que tenho, de fato, são tuas palavras...ah, isso, não poderias vir a me negar...
Daquele dia em diante, Francisco pegou sua caneta e nunca mais deixou de responder a uma só carta que Júlia deixara propositadamente em seus sonhos para que ele lesse.
(escrito por Julinha da Adelaide)
Kalynka Cruz | comentários(4)
06/05/2006 20:25
...
TEREZA
Espero os carros passarem, chove. Uma garoa fina se espatifa seqüencialmente no asfalto quente. Quase não percebo a chegada de uma moça ao meu lado. Seu perfume chama minha atenção mais do que seus passos leves e incertos que imagino desviarem-se das poças de água que se formam.
Seu cheiro faz com que me volte para reconhecer a origem. Trata-se de uma jovem, um pouco mais de 20 anos. Pele morena. Cabelos negros. Muito magra. Rosto marcante. Um pequeno nariz arrebitado, maçãs destacadas e olhos negros amendoados. Percebe que me voltei a ela e esboça um sorriso indefinido, quase como se estivesse dividida entre ser simpática e estar envergonhada por minha curiosidade a lhe percorrer o rosto. Percebo seu embaraço e retiro meu olhar. Mas seu cheiro continua a invadir minhas narinas. Minha mão treme. Alguns segundos apenas e descubro estar irremediavelmente apaixonado.
Uma menina, penso. Um velho, digo pra mim a reconhecer que meus 55 anos já se tornam óbvios demais para que eu possa encantar uma moça tão jovem e irremediavelmente bela.
Arrisco outro olhar. Desta vez não posso deixar de perceber, seus braços e pernas graciosas. A cintura fina evidente no seu justo vestido azul celeste. Ostenta um discreto decote, a antever as curvas não tão sinuosas dos seios. Percebo seu pescoço longo e me deparo novamente com seu rosto e sua boca. Lábios brilhantes. Novamente ela me percebe. Desta vez me encara. Imagino que vai chamar o primeiro guarda que passar na sua frente ou sair correndo de meu lado. Mas outra vez sorri, e com mais simpatia.
Seria pena?
Tateio um cigarro no bolso direito, coloco na boca e busco envergonhado o isqueiro, sem conseguir achá-lo. Ela, rapidamente abre sua pequena bolsa e me estende um isqueiro prateado. Aceito. Toco sua mão gelada ao recebê-lo, balbuciando um agradecimento. Quase não acredito ao ouvir sua pergunta: - Será que este sinal está quebrado, afinal já estamos aqui há mais de 5 minutos?
É verdade, penso, quase não havia percebido a passagem do tempo, enquanto tentava adivinhar seus encantos. Ela corta minhas reflexões com outra fala, desta vez mais surpreendente:
- Seria bom se andássemos até o outro sinal.
-Claro. Concordo imediatamente já me pondo em movimento.
A chuva fina engrossa e apaga meu cigarro, ela ri.
Quase morro ao perceber a transparência revelada no vestido azul. A chuva torna a engrossar e o céu escurece rapidamente. De repente ela pega em meu braço e franzindo o rosto por conta de chuva a cair fortemente me mostra o parapeito de um casarão onde podemos nos abrigar da chuva.
-Nossa que chuva. Agora fiquei toda molhada. Mas quem vai pra casa não se molha...
-É verdade. Como você se chama?
-Tereza. E você?
Titubeio antes de responder. Ela me chama de você. Um bom sinal.
-Eu me chamo Alain. Então Tereza, você está indo para casa?
-Sim, moro bem perto daqui, na verdade, meio quarteirão depois que atravessar esta avenida, dobro na próxima rua à direita e quase já estou no meu prédio. E você.
-Bem, eu ia à oficina, pegar meu carro. Também é aqui perto.
- Hummm. Tá frio né? Essa chuva me congelou.
-Ahã.
-Você não sente frio, não?
-Sinto.
-Olhe minha mão como congela. Diz ela enquanto pões seus dedinhos fininhos entre os meus, para em seguida tirá-los rapidamente.
-Está gelada, respondo com força para não mostrar meu embaraço.
-Estou.
Crio coragem e passo meu braço de leve por sobre seu ombro. Ela, contrariando minhas previsões. Sorri e enfia seu braço pela minha cintura, aconchegando-se.
-Quando a chuva passar quer tomar um café comigo?
-Quero, quero sim.
***
-Alain, Alain, acorde. Vamos dorminhoco, parabéns, feliz aniversário. Acorde amor!
Assusto-me, estava sonhando. Mais uma vez. O mau humor quase se apodera de mim quando acordo, mas ela corta meus pensamentos.
-Que foi amor, está se sentindo bem?
Sento na cama, respiro fundo e respondo:
-Sempre amor. Sempre desde o dia em que lhe conheci. E pego Tereza no colo, enlaçando sua cintura, ainda tão fina e beijando sua boca, sempre tão bela.
Kelly Kalynka
(Publicado pela primeira vez em meio digital sob o pseudônimo Julinha da Adelaide)
Kalynka Cruz | comentários(1)
28/04/2006 19:48
A alma e os beijos que me foram roubados
Noites inteiras
A pensar sobre os beijos.
Aqueles que não foram dados
Que não foram roubados,
Por mim.
Beijos não sentidos,
Não retidos,
na memória.
Beijos tão queridos
Desejados
Esperados
Nunca realizados
Beijos que se perderão
No espaço dos anos em que
lembrarei de tua alma
perdida por um lapso de tempo
e um erro espacial.
***
Especial seria, se tivesses sido meu.
**************************
(escrito por Julinha da Adelaide)
Kalynka Cruz | comentários(4)
17/04/2006 14:33
A Cortina da janela
Eu te vejo esconder-se sorrateiro atrás da cortina da janela ao ver que eu estava lá.
Tolo, pensei. Queria apenas fazer-te uma pergunta:
- Mentes?
Responderias que não.
- Me amas?
Enrubescerias, gaguejarias e dirias, metódico, que o amor não surge de olhares trocados em janelas.
-Mentiroso. Vistes como mentes? Acaso eu não te amo, apenas de vê-lo passar de lá pra cá, cotidianamente?
E tu, que, não perdes nenhuma oportunidade de contra-argumentar, olharias bem sério e dirias que, para ti, e somente para ti, o amor não surge de olhares trocados em janelas.
Eu, de cá, te olharia de novo, e diria, já a bufar e remoer-me: - se não me amas, então vai.
Divertido, olharias nos meus olhos e dirias: - mas não sou eu que estou em janela alheia, e sim tu, portanto, se alguém deve partir...
Neste momento, dramaticamente me viraria, já lacrimejante, fazendo efeito com meu vestido florido e minha chinela de dedo, pronta a sair dali, mas tu, num rompante, me puxarias pelo braço – quase a cair da janela - e sentenciarias: fica. A porta se abriria, eu olharia de um lado ao outro se não havia ninguém a nos espreitar e entraria. A partir daí a noite se transformaria num delicioso conto de prazer.
Mas isso tudo, se não tivesses te escondido, sorrateiramente atrás da cortina da janela...
(Publicado pela primeira vez em meio digital sob o pseudônimo Julinha da Adelaide)
Kalynka Cruz | comentários(0)
13/04/2006 20:24
Umbrais

Umbrais
"Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!"
Florbela Espanca
Nos umbrais que percorro a te procurar
há sempre a notícia de que partistes
a buscar em disparada outro lugar
ao saber da chegada de meus olhos tristes.
Nos umbrais que me encontro a te lamentar
Há sempre outro demônio a me dar consolo
Como se possível fosse colocar no lugar
do encantador um reles tolo.
Nos umbrais que percorro a me debater
Esperando reencontrar a ti meu amado
Há sempre os que vêm me esvanecer
E dizer que teu amor há se apagado.
(escrito por Julinha da Adelaide)
Kalynka Cruz | comentários(0)
09/04/2006 18:35
ANSIEDADE
ANSIEDADE
Deito-me na (in)certeza
De que amanhã te verei
Não como te vê tua amada
Não como te vêem os amigos
Mas como, só tu mesmo, te conheces
Em palavra e conteúdo.
Deito-me alarmada
Pelo que acontece, e contudo,
Sinta-me assim desejada pelas palavras, amiúde,
Há em mim um descompasso
Quase como um fracasso
De só possuir, o que não se possui.
Quero-te corpo, não alma
Quisera ser como as outras
Que insensatas, as loucas,
Podem desperdiçar segundos
Que, ai, queria-os só meus.
E se posso enlouquecer
A quem importará este ato?
Se minha vida é solitária,
Em virtualidade e fato.
(escrito por Julinha da Adelaide)
Kalynka Cruz | comentários(0)
07/04/2006 11:41
...
O BONDE
Peguei um bonde andando,
Sem saber o destino.
Desatino!
Subi sem a passagem
Agora quero descer
Mas a vertiginosa paisagem
Começa a me enlouquecer
Fora que assisto em pé
Tudo que por aqui passa
Porque não há vaga no bonde
No qual entrei de graça!
(escrito por Julinha da Adelaide)
Kalynka Cruz | comentários(0)
19/03/2006 01:40
Amores perros
Eterna mutante.
Não enquadrada em nenhuma história,
A dona da bola, a mulher da vez.
Apaixonada pelas causas impossíveis.
Criadora de caso, contadora de histórias.
Possessiva, vingativa, intuitiva.
Escorpiana, passional, carnal.
Determinada e determinista.
Alma de vedete, vida de extra.
Nem mocinha, nem bandida.
Nunca a mesma mais de uma vez.
A viajante.
De sentidos invertidos.
De pele macia e duro coração.
Ama com ardor
Mas está sempre errada
Quando o assunto é amor.
Sorriso fácil
Vida de erros
Amores perros...
Kalynka Cruz | comentários(1)
15/03/2006 13:57
A filha do Ricardo
Para o dedo quebrado,
da filha do Ricardo!
O dedo da mão da filha do Ricardo
Que lê à noite silente
É o dedo que a filha do Ricardo
Vai entregar a algum pretendente.
A filha do Ricardo, a do dedo,
É a mesma que lê no escuro,
Sem medo.
A filha do Ricardo, a do dedo quebrado
Vai esquecer a boneca e contar ao Ricardo:
Pai arranjei um namorado!
E o Ricardo, pai da filha sem medo
Que um dia quebrou o dedo
E arranjou um namorado
Vai perceber encantado
Que a filha do dedo quebrado
Aquela que não tinha medo, nem namorado,
Agora lhe tem segredos.
Kalynka Cruz | comentários(1)
09/03/2006 22:02
O que vale é conhecer a alma
Para Adriana, minha querida mega amiga byte!
O que vale é conhecer a alma,
Nessa tranqüila e calma maneira de existir
É o sorrir pelo teclado, sonhar acordado.
Chegar e partir sem dor.
Teia virtual de emoções.
Cadeia gigabyte de paixões.
Nessa selva de bytes, não há high nem low society.
Não há solidão não desejada.
Há sim companhia e medo e até um pouco de segredo...
Mas não tenha receio não...
aqui é você quem escolhe o jogo, os jogadores e a premiação.
Não há belezas puras e simples que sejam duradouras.
Sobrevivem somente os de alma forte e conteúdo,
Que se encontram em experiências viscerais
e se descobrem nos segredos desnudos.
K.K.
Kalynka Cruz | comentários(1)
06/02/2006 14:45
Kalynkas
Este texto o fiz, em promessa à minha amiga e xará Kalinka.
Na verdade, prometi escrever sobre BSB, mas não resisti a esta idéia que me transitava na cabeça no vôo de Brasília a Belém.
Depois escrevo sobre Bsb e as desventuras (ou aventuras ?) em série de uma jornalista....
Ok. Kalinka? Espero seu texto de volta, conforme o prometido.
Bjs.
K.K.
Ser Kalinka e Kalynkar
Kalynkando. Neologismo criado para o excesso de afazeres. Pessoa estressada, cheia de ocupações que resolve diversas coisas ao mesmo tempo. Este neologismo, criado há alguns anos pelo amigo (e escritor) Fausto que ao me ver atravessando os corredores da Universidade Federal do Pará, teve um ato inspiratório e humorístico virando-se para mim: Kalynka, andas mesmo kalinkando...
Desde então, o termo virou o neológico verbo descrito acima.
Na minha última estada em Brasília, acabei criando outro neologismo ao conhecer a nada menos do que encantadora: Kalinka (o dela é com i mesmo). Por isso Kalinkar, com i , virou também sinônimo de gente feliz. Sabe aquelas pessoas para quem o mundo pode até girar a mil, que pode estar cheia de afazeres e de preocupações, mas continua sendo adorável? Poisé. Isso é uma pessoa Kalinka (com i)!
Temos então um verbo e um adjetivo.
Repassando:
O verbo:
Kalynkar (com y) é assumir vários afazeres ao mesmo tempo, passar feito uma flecha de um lado a outro, assumir mil compromissos e olhar estressada com uma cara de que foi afrontada quando alguém lhe diz: dá para você parar um pouquinho e falar mais devagar? Pobre ser humano que ousar interpelar alguém Kalynkando desta forma...
Resumindo, isto é Kalynkar. Trabalhar em excesso, mas com convicção e paixão!
O adjetivo
Kalinka (com i) é uma pessoa que pode até Kalynkar, mas que mantém sempre um sorriso encantador no rosto, e que, mesmo que um avião caia na sua frente, ela olha pro rosto apavorado de quem está do seu lado e diz: relaxa, ainda bem que não caiu na nossa cabeça.
Resumindo, ser Kalinka é ser adorável e alegre mesmo que um avião caia do seu lado.
Por isso, ao se pegarem cheios de afazeres profissionais, sem tempo pra respirar e alguém lhe ligar e perguntar o que anda fazendo, respire fundo e orgulhosamente responda: kalynkando.
E se, ao contrário, alguém kalynkando passar pela sua frente e se dê ao trabalho de lhe sorrir ou derramar uma palavra amiga, pense: é uma Kalinka mesmo!
Bjs.
Kelly Kalynka
Jornalista que adora Kalynkar
e quer aprender a ser Kalinka
Kalynka Cruz | comentários(4)
12/01/2006 15:54
Em paz

Em paz
Aqui jaz uma poesia
Que eu escrevia para ti
Que havia nascido pulsante
Mas que sem esperanças definhou.
Que ela descanse em paz
E sepulte junto consigo
Todo o amor que havia comigo!
Kalynka Cruz | comentários(0)
06/01/2006 21:38
Meu Nicanor
“Onde andará Nicanor, tinha nó de marinheiro,
quando amarrava um amor...”
Chico Buarque
“Há sempre algo de ausente que me atormenta”
Camille Claudel
Meu Nicanor
Esse Nicanor foi bem pra onde?
Pra onde foi meu bom senhor?
Já é tarde nesta vida e ninguém viu Nicanor.
De promessas não vividas
E saudades ressentidas
Vou vivendo sem saída
A esperar-te Nicanor!
Não me deste a primeira rosa,
Nem me comprastes um perfume,
Não cheiraste minha blusa,
Nem morrestes de ciúme.
Não te instalastes em minha casa,
Não beliscastes na cozinha,
Não me destes um poema,
Nem me chamastes de morena.
Pra onde tu fostes Nicanor?
Que me deixastes perdida,
Nessa vida tão pequena.
Sei que tu hás de existir,
E vais chegar bem de mansinho,
Vais beijar no meu ouvido,
E me tratar com carinho.
Mesmo sem saber como te chamas,
Mesmo sem saber teu cheiro,
Sem sequer saber se amas,
Há muito te fiz passageiro
Da minha mais forte ilusão.
Desde que me fiz mulher
Juro pensei ter te encontrado
Em muitos braços quaisquer.
Mas era sempre um engano,
Um sentimento errado.
E se hoje te nomeio
como querido Nicanor
É porque preciso dar nome
A essa ausência e a essa dor.
Enquanto na vida não chegas,
Tudo me aflige, nada me acalma
Nem me conforta e alma
Que fica a sentir saudades
De alguem que não conhece,
De algo que não viveu.
De um amor que promete,
Mas que ainda não foi seu.
Onde andará meu amor?
Onde andará Nicanor?
Kalynka Cruz | comentários(1)
03/01/2006 01:03
Poema para a amiga Madá
MADÁ, QUE BELA!
Que linda menina cheia de talento e graça.
Que linda menina a sorrir e cantar,
Que bela é ela a me espantar
do coração a mais fútil traça.
Se me diz que sou o presente,
Lhe desminto sem desagravo,
Decerto que foi a mim
o lindo presente enviado.
Uma menina tão linda,
Cheia de travessuras infantis
e de encantos pueris...
Minha bela Madalena,
Minha pequena Madabela,
Que Deus te conserve sempre amada,
Sempre a Mada, sempre bela !
Kalynka Cruz | comentários(1)
28/11/2005 02:58
Quem sou eu
Quem sou eu?
Essa pergunta me cansa, às vezes.
Quem sabe o que se é realmente?
Quem realmente entende sua própria alma ou a de outrem?
Acho que sou o resultado de tudo que vivi.
Hoje tenho 80 anos, porque meu desejo é deitar e chorar essa imensa solidão que me habita alma. Outro dia eu tinha 15, escrevendo com essa idade e sonhando como uma menina adolescente ousa sonhar. Há 15 anos, quando minha primeira filha nasceu eu me sentia com 40 anos. Tamanho o peso que se havia se colocado sobre meus reais e juvenis 17 anos.
Aos sete anos, quando minha mãe me abandonou. Eu me sentia como um bebê que desejava desesperadamente voltar ao útero. Enfim, eu não tenho idade cronológica equivalente porque todos os dias eu me sinto em uma idade diferente.
Complicado. O que posso dizer pra me descrever? Que eu adoro dormir no sofá. Que eu perdi meu medo de passar na frente do cemitério. Que eu choro muito depois de ouvir Chico Buarque, porque eu me sinto mais só do que sou. Que eu sou impaciente e quero tudo na hora. Que meu humor piorou depois que me separei. Que eu afasto inconscientemente as pessoas que se aproximam de mim e que às vezes quando percebo já é tarde para reconquistá-las.
Que gosto de ler de madrugada. Que adoro caminhar. Que tenho preguiça de cozinhar, por isso finjo que não sei.
Que minha amada avó tem câncer e que eu não consigo mais visitá-la porque não sei lidar com essa perda e que acordo TODAS as madrugadas pensando nela, mas não tenho coragem de ir de novo vê-la porque me recuso aceitar o que está acontecendo.
Que meus cabelos são negros e que eu faço mechas castanhas para esconder meus primeiros cabelos brancos, embora não tenha medo da idade, mas tenho medo de chegar aos 35/40 anos e perceber que aquele momento especial não aconteceu e que a minha vida é medíocre, comum e sem sentido. Medo de acordar um dia e olhar para o lado, percebendo que não encontrei ninguém que valesse a pena a minha vida inteira.
Dizer que eu sou chorona e não choro só depois de ouvir Chico Buarque, eu choro também no cinema (às vezes eu saio escondida, que nem no filme do Hitler que eu chorei pela morte das crianças, mas saí do cinema escondida pra não pensarem que eu estava chorando pelo Hitler). Eu choro na rua pelos problemas sociais que não posso resolver sozinha, eu choro escondida na minha sacada de madrugada pensando em problemas que não são diretamente meus. Eu choro pelos meus filhos, imaginando que eles ainda vão, como eu, aprender muito com a vida.
Dizer que gostaria desesperadamente de conhecer alguém que fosse tão inteligente como eu (e modesto também...) e que esse alguém se apaixonasse por mim e me fizesse coisas que nunca nenhum homem fez. Coisas do tipo cantar pra mim, me escrever um poema, ou uma carta de amor profunda. Que esse homem sentisse ansiedade ao me ver, que o ar lhe faltasse e ele pudesse me tomar em seus braços, doido pra me levar pra cama e pra me dizer como eu sou especial.
Que escrevo compulsivamente. Que muitos poemas e contos vão parar na lata de lixo e que outros estão guardados para serem mostrados. Que escrevo contos infantis e de terror e que penso um dia em publicar outro livro. Que eu não leio muitas vezes meus contos supersticiosamente para não lhes tirar a magia.
Que adoro sol, mas não gosto de praia, mas que contraditoriamente sonho em morar num apartamento que tenha uma enorme janela para a praia.
Que eu sou carinhosa, mas dura. Que eu sou dura, mas compreensiva e justa. Que eu sou justa, mas não sou complacente. Que eu não sou complacente, mas sou piedosa.
Que a lealdade, o senso de justiça e a intensidade são características muito fortes em mim.
Que minha alma é forte, mas minhas mãos são frágeis e é muito fácil me ferir. Que, tenho sempre a sensação de que está faltando alguma coisa em minha vida, à semelhança do que dizia Camille Claudel: há sempre algo de ausente que me atormenta.
É isso.
Kalynka Cruz | comentários(4)
03/11/2005 15:27
ANÚNCIO
Achei:
Objeto perdido não identificado
Largado, lindo, perfumado e encantador
Num pub de uma cidade ao equador.
Por ética e moral
Anuncio aqui neste jornal
Se for seu venha buscar, mas não demore,
Pois se demorar, eu ando mesmo pensando em ficar...
Na verdade andei cogitando
A possibilidade de logo ir lhe pagando
Pelo bem que perdeu,
Pois pra ser sincera e falar com convicção,
Eu não quero devolver não
Este objeto que está
a derreter todas as fibras do coração.
Você aceita?
Kalynka Cruz | comentários(2)
25/10/2005 21:10
...
Receita de doce para duas pessoas
É preciso ½ xícara de interesse
500 gramas de atração
Duas pitadas de mistério
E sorrisos à vontade
Doure acrescentando verdade
Cuidando sempre para que não perca o ponto da delicadeza
Adicione como cobertura sentimentos verdadeiros
Sirva quente,
E divida por igual.
Kalynka Cruz | comentários(0)
23/10/2005 21:33
Vendem-se beijos

Vendem-se beijos
Gosto de beijos
Ardentes
Frequentes
Descomprometidos
Beijos que nos perdem
Alucinam
Determinam o dia que se segue
Beijos inesperados
Que sussuram a pele
Que murmuram propostas
Que calam respostas
Gosto de beijos
Quentes
Gelados
Alucinados
Beijos infestados
de más intenções.
Kalynka Cruz | comentários(8)
22/10/2005 15:20
Fuga
Fuga
Era dia, quando a mulher chegou em casa,
na ponta do pé.
Escondia-se do marido contador
Ah, e que contador!
Contador de caso, contador de história e lorotas.
Mas, voltando à mulher.
Era quase dia quando a mulher chegou em casa,
Na ponta do pé.
Feliz pelo Ricardão, que também era contador
Ah, e que contador!
Contador de sonhos, contador de beijos, contador de desejos.
Mas, agora de fato, voltando à mulher.
Era dia quando a mulher chegou em casa,
Na ponta do pé.
Não tinha medo do marido,
Só saudades do Ricardo.
Não tinha medo do futuro,
Só saudades de si mesma.
Abriu aporta, pé ante pé, começou a entrar.
Mas, de repente, num movimento abrupto, mas silente,
Voltou-se à rua: ah, e que rua!
Linda, cheia de flores, iluminada pelos primeiros raios de sol.
Nunca mais o marido viu a mulher.
Que lhe deixou a mobília, a roupa e o cartão.
Já a mulher, que saiu sem sombra, nem dúvida.
Tinha consigo apenas uma lição: só se leva da vida aquilo que se viveu.
Kalynka Cruz | comentários(0)
26/09/2005 22:31
Amigo
Ao amigo virtual Antônio
(Que se dá o trabalho de publicar lindos poemas para mim!)
ANTÔNIO
Se em meu peito era noite:
Dia.
Se meu coração range como o de Madalena:
Maria.
Se minha sina é tristeza:
Fantasia.
Se não encontro beleza:
Poesia.
Se em minha vida tudo é matéria:
Sonho.
Se tudo em volta é solidão:
Antônio.
Kalynka Cruz | comentários(0)
07/09/2005 20:42
Em busca da perfeição
Em busca da perfeição
Tem um lugar vazio.
Onde deveria estar amor, compaixão.
Onde deveria habitar a palavra, solidão.
Onde havia alegria, agora o medo.
Que solidão pior meu Deus que esta solidão desenfreada no meio da multidão?
Que solidão merecida, essa de buscar a perfeição e só encontrar arremedo.
Que solidão passam os tolos, como eu.
Se fosse sábia,aceitaria, de bom grado quem me queria.
Como uma cantiga de roda, tão simples e pura de se viver.
Aceitaria o beijo do leiteiro,
O sorriso do verdureiro,
As cantadas do orkuteiro.
Aceitaria o bom dia de bom grado,
O bom moço, de bons modos.
A boa prosa com boas palavras.
Porquê, porquê Meu Deus esse desatino?
Porquê mora esse monstro em mim que me isola da vida
e em meus sonhos românticos põe fim?
Kalynka
07/09/20054
Kalynka Cruz | comentários(0)
05/07/2005 00:39
INSANIDADE

INSANIDADE
Esta tarde morna,
Que me adorna e modorra-me a vida
Não amorna as labaredas de minha mente insana
Louca, dirás,
Uma cleptomaníaca sentimental direi.
Roubo-te suspiros e pequenos segundos de prazer.
Nem percebes e eles estão ali comigo,
Ninguém pode tirá-los mais...
Teu sorriso raro,
Teus olhos de brilho claro,
Tuas mãos a percorrer distraidamente o colo.
Um segundo e pronto, são meus, momentos que eram só teus.
Que podes fazer?
Executar-me a alma?
Encarcerar-me o olhar?
Não, não podes nada fazer.
Meus olhos são livres, porque foram arrebatados por ti
E esse arrebatamento deu-lhes liberdade eterna.
Já minha alma é morta, enquanto a ela não pertenceres.
Então resigna-te à tua tolerante distância
e à minha insuportável descrepância no teu viver.
Pois se te roubo segundos,
É porque, meu caro,
Já me roubastes a sanidade, de uma vida inteira.
K.Kalynka
00h26
Casa
Kalynka Cruz | comentários(2)
28/06/2005 02:02
Insensatez
“Eu te vejo sumir por aí, te avisei que a
cidade era um vão da tua mão...” (Chico)
Insensatez
É tarde na imensa madrugada em que não me pertences.
Tua lembrança se vai, leve, tênue. Se esvai, fluida, solta...de mim.
É tarde na imensa madrugada de minha alma,
quando decido não recuperar-te.
Afinal, se não fostes meu e para ti nunca fui tua,
na verdade não será uma perda, apenas uma decisão.
É tarde na imensa madrugada de meu viver.
Lavo os cabelos. Quisera lavar a alma.
Quisera apagar-te de mim, com a mesma rapidez com que te trouxe à minha vida.
É tarde na imensa madrugada de minha insensatez.
As janelas estão fechadas.
Dormes, de certo.
Mas eu. Permaneço acordada.
Já não durmo. Desde a última vez em que te pertenci.
Já é tarde.
É madrugada.
Não me pertences.
Minha alma é tua.
Minha vida não.
E todas as palavras que eu disser, serão insensatas.
K.K
Kalynka Cruz | comentários(2)
16/06/2005 11:56
O homem é o lobo do homem (T. Hobbes)
O homem é o lobo do homem (T. Hobbes)
O que é a derrota?
Entregar-se como presa cativa ao caçador
para que ele possa como caça exibi-la?
Que derrota pior que à fera entregar-se
Para por ela ser entregue à outro?
Que derrota é essa que me atormenta?
Derrota de doar-se com paixão à quem pensa somente em
estraçalhar-te como carne fria e fácil que alimenta o inimigo...
Que derrota é essa?
A de amar um falso amigo e dele receber sua sentença de morte?
Morro. Morres.
Eu sem você.
Você sem saber que a presa, apetitosa,
tornou-se cativa apenas para alimentar, de vontade própria,
a fome do homem, a fome do lobo, a fome do menino.
K.Kalynka
Cosa - 2005
Kalynka Cruz | comentários(0)
04/06/2005 23:11
DESEJO
DESEJO
-Um pouco de poesia por favor, para refrescar essa deselegância humana que está fazendo hoje.
-Não tenho.
-Como não moço? Poesia é um item fundamental! Então me veja por favor uma dose de sutileza, que ela também é muito eficaz na ausência da poesia pura e simples.
-Não sei nem como se faz.
-E amor, por acaso você teria?
-Caiu em desuso. É um produto pouco procurado.
-Ai moço, não faz isso não. O senhor não teria aí um pouquinho de amor guardado. Assim para os clientes como eu que ainda querem amor?
-Tenho sexo. Serve?
-Parece, mas não é. Amor é leve, perfumado, enebriante. Sexo é muito forte, causa embriaguez profunda e não tem a sutileza, a leveza e a poesia que só o amor fornece.
-Depende da marca.
-Não moço, você está enganado. A associação dos dois produtos é até positiva. Mas sozinho, nenhum substitui o outro, mesmo que seja de boa marca. Então tá, além de sexo, que eu não quero, o que mais o senhor teria por aí pra refrescar-me da deselegância humana? Aliás, o tempo tá assim agora. Sobra deselegância humana e falta ética, cuidado e amor!
-Tenho aqui um produto que talvez você goste. Não é amor, mas parece. É romance puro e simples. Agora é pra ser consumido rapidamente, porque tem data de validade prestes a vencer.
-Não, não. Obrigada ! Esse negócio de romance com data de validade curta dá uma ressaca muito forte. Adeus. Quem sabe eu volte aqui quando o senhor tiver poesia, sutileza, amor, delicadeza e outros produtos assim pra oferecer...
K.K.03.06.2005
Kalynka Cruz | comentários(0)
03/06/2005 12:39
Luigi, o menino lobo.
Luigi, o menino lobo.
Quem é esse menino que passa por mim e posta-se ao meu lado?
Veste-se com uma antiga pele de lobo, que não passa no entanto de uma fantasia.
É na verdade um menino, tímido, que teima em se esconder...E finge caçar cordeirinhas...que na verdade são lobas, a atacá-lo!
Menino, ei menino! Cuidado pra não ser devorado.
Tu não estás só.
Apenas assustado!
Cuidado, cuidado !
K.K.
Kalynka Cruz | comentários(3)
28/05/2005 20:10
Despedida
Despedida
Eu te amei desde o dia em que te conheci.
Amei desde a primeira noite em que nos vimos.
Amei mesmo quando me deixaste. Amei quando voltaste. Amei quando parti.
Eu te amei nas vitórias e nas derrotas. Amei em silêncio na tua ausência suspeita. Chorei na tua porta, fiquei semanas sem dormir.
Passei fome ao teu lado, bebi tua bebida, cheirei tua boca e cuidei de ti.
Eu te amei cada segundo da minha vida, como uma dor pungente, uma dor latente, como uma faca incrustada no meu coração.
Eu te amei quando eras belo, eu te amei quando não o eras e aprendia te amar para que te tornasses novamente belo a meus olhos.
Eu te amei em cada ferida que no meu corpo esculpistes. Eu te amei quando subjugada, maltratada, fui por ti. Amei incondicionalmente, amado. Amei de verdade.
Amei tuas verdades absolutas e também as mentiras que acolhi.
Amei pelas cartas que não me escrevestes. Amei pelas dores que me prescrevestes, amei pelos poemas que não eram pra mim. Amei pelos elogios que não me destes, pelas gentilezas que não fizestes, pela temperança que não foi minha. Amei.
Mas verbo este, passado, choro hoje, ao teu lado, para dizer que perdi.
Perdi o amor que sentia. Perdi na angústia dos dias em que esperei ser alguém para ti.
São tantos os anos idos, tantas dores de múltiplos sentidos, que me sinto hoje como outra, num corpo estranho e sem alma. De uma frieza e de uma calma, que nunca em mim percebi!
E se te deixo à mingua, triste e sem esperança, não pense que o quis assim.
Não é mal querer, nem vingança. É só uma triste sentença, que o tempo nos aplicou: não há amor sem cuidado, não há amor recalcado, não há amor que viva de si.
K.K.
Kalynka Cruz | comentários(6)
03/03/2005 14:44
ABANDONO
Gostaria de registrar, que a partir de hoje, 13 de Abril de 2006, este poema pertence a Gibran, que amou em sua primeira leitura. Rsrrs. Gibran, é pra vc!
ABANDONO
Eu vou te apagar
Da minha mente
Silente de tudo que eu queria ter
Das tuas palavras não ditas
De todas aquelas cartas que não foram escritas
De todo prazer que não ousei ter
Eu vou te pagar
Pelas minhas feridas,
Lânguidas, deslambidas
Aquelas que criei em vida
Mas que na morte hão de perecer
Eu vou te
Arrancar do meu umbigo
Andarei sozinha
Fugirei comigo
Ciente da loucura
Inconsciente da candura
Louca pra me perder
Eu vou
Não fui
Nem sou.
K.Kalynka
2005
Kalynka Cruz | comentários(1)
16/02/2005 12:19
Que é de Maria?
Não é de amor que se morre, é de solidão.
Meu Deus, quanto palavra jogada no chão.
Quanto confete,
Quanta pancadaria.
Seria noite ou dia,
Quando me fugiu Maria?
Maria era,
tão moça apenas,
mãos laborosas,
boca pequena.
Falava pouco,
comia um bocado.
brincava comigo,
e me dizia coitado.
Um dia, sem querer
Deixei ela cair
Não assim proposital,
Foi mais sem querer mal.
Maria não entendeu,
Saiu pela porta e no mundo se meteu.
Onde anda Maria, a quem fará feliz?
Será que me lembra ou ainda me desdiz?
Maria?
K.Kalynka (2003)
Kalynka Cruz | comentários(1)
16/02/2005 00:42
Paráfrase horrenda
Dois mil homens do exército brasileiro passarão a atuar no Pará.
Não serão capazes, no entanto, de resolver o problema desta terra sem-lei. Desta terra sem honra. Onde homens armados acabam com a vida de uma mulher desarmada, que tinha como única defesa, uma bíblia.
Uma terra onde estelionatários assumem cargos públicos, onde dezenove pobres e desarmados homens são assassinados e seus algozes soltos um a um.
Uma terra onde espancamentos públicos não conseguem ultrapassar a barreira midiática.
Polícia pra quê? Militares pra onde?
Transporto-me para dentro desta história como quem entra em um romance de Gabriel Garcia Márquez, onde um ser humano sangrado à luz do dia, não passa de mais corpo, apenas um corpo.
Não passa de mais um cálice de um veneno amargo, servido àqueles que – ainda - acreditam no homem de Russeau, esquecendo-se que na verdade, não é o meio e sim o próprio homem, o genitor da maldade.
A vida é mesmo, um grande clichê.
Paráfrase horrenda dos sonhos humanos.
Kalynka Cruz | comentários(0)
10/02/2005 16:36
Carnaval
"Mas é carnaval. Não me diga mais quem é você...."
Não devo ser boa da cabeça mesmo (meu pé é normal), mas detesto carnaval.
Detesto toda aquela "abundância".
É bonito? É, é sim. Mas cansa.
Ainda bem que "amanhã tudo volta ao normal".
Eu volto.
Vou sortear um filme e volto pra bater papo.
Kisses.
Kalynka Cruz | comentários(0)
27/01/2005 23:02
The Blower's Daughter - Damien Rice
And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it is
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...
And so it is
Just like you said it should be
We'll both forget the breeze
Most of the time
And so it is
The colder water
The blower's daughter
The pupil in denial
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...
Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to
Leave it all behind?
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off you
I can't take my mind...
My mind...my mind...
'T il I find somebody new
Kalynka Cruz | comentários(1)
27/01/2005 22:40
Closer
Estou bastante tempo tentando inaugurar esse novo blog. Tá difícil. Tem que ter inspiração, e ultimamente isto me falta.
Vamos lá fofoqueiros de plantão: detalhes de minha vida nesse blog? Negativo. Não dá certo. Não, não insistam, não é diário e convenhamos, não tenho mais idade pra isso.
Tá, tudo bem, eu não sou assim tão velha.
Mas calma, não chorem. Inauguro o blog com a letra da música The Blower's Daughter, do Damien Rice.
Hã, onde, como assim?
Bem, se você não sabe essa música linda é o tema musical do filme Perto Demais (Closer). Um filme fantástico. Mas não vale assistir se você é, digamos assim... imaturo ou...burro.
O filme é fantático, mas só pra quem tem um pouco mais daquilo que os pernósticos de plantão chamam de cérebro.
O filme é como um beijo, daqueles que tiram seu fôlego (você já foi beijado assim?).
Ele fala essencialmente das relaçoes humanas modernas. Das efemeridades emocionais. Ou melhor, de como a paixão, o amor, são lindamente banais e ambiguamente complexos.
Quem sou eu realmente? E este que está ao meu lado, ele me conhece ? Merece
conhecer-me? Alguma vez já quis me conhecer de verdade? Devo me entregar
a alguém que não sabe realmente o que se passa em minha alma? Se eu deixar
de amá-lo (eu o amo?) será que amarei outra pessoa?
Fala-se em "Perto Demais", da chance que todos temos de ser livres, na chance
que todos temos de recomeçar. Fala daquelas pessoas que têm essa coragem.
De recomeçar, sempre. Tudo outra vez.
Kalynka Cruz | comentários(0)
/BlogInicioPost?>